Teatro em Portugal / Teatro Português

2010

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Autor

António Gomes Marques



I

Começo por fazer uma declaração: não vivo do teatro, nem espero vir a viver! E continuo com uma pergunta que, várias vezes, tenho feito a mim mesmo: seria mais feliz se do teatro vivesse? Não sei a resposta certa, mas uma certeza eu tenho: em Portugal, a trabalhar no teatro, dificilmente viveria como vivo.

Gosto de fazer o que tenho feito ao longo de várias décadas para ganhar a vida, como é uso dizer-se, mas talvez gostasse mais de fazer teatro!

Concluindo esta questão, presto a minha homenagem àqueles que ao teatro se têm dedicado no nosso país, fazendo disso profissão e que, naturalmente, tiveram mais coragem do que eu para prescindirem de algumas facilidades que outra profissão melhor remunerada lhes poderia proporcionar.

Uma outra questão, que é para mim fundamental, tem a ver com a razão que originou a minha paixão pelo teatro e que só consigo justificar com o facto de o teatro conter todos os meios de expressão artística, sejam musicais, pictóricos, plásticos e até arquitectónicos. Com tais meios de expressão, o teatro torna-se uma arte total, capaz de representar uma universalidade de temas que têm a ver com o homem e com o mundo.

Haverá quem pense o teatro, essencialmente, como a arte do actor, o que, hoje, não me custa a aceitar. Se tivesse oportunidade de ser encenador, julgo que procuraria fazer um teatro em que predominaria a luz branca e o preto das cortinas, evidenciando sobretudo a representação do actor, para a qual procuraria chamar a atenção do espectador. Mas deixemos o sonho, que necessitaria de uma outra explicação que não cabe agora aqui.

Há ainda, para além de muitos outros, dois aspectos fundamentais que me apaixonam: o teatro é fruto de um trabalho colectivo, até mesmo com um encenador autoritário, e é uma arte que não dispensa o público. Distingue-se particularmente do cinema, pela renovação constante de espectáculo para espectáculo, ou seja, no teatro não há dois espectáculos iguais, mais diferente ainda se assistirmos a um mesmo texto em épocas diferentes, se esse mesmo texto for interpretado por diferentes encenadores e diferentes actores (isto também pode acontecer no cinema), é um espectáculo em que basta a mudança dos públicos que a ele assiste para se estar perante um espectáculo renovado. É um espectáculo que, para se concretizar, exige uma rigorosa investigação e posterior experimentação, até pela consciência que se deve ter de que se trata de uma arte em que a sua necessária unidade está permanentemente ameaçada.


II

Como intitulei esta comunicação de «Teatro em Portugal / Teatro Português», vou agora falar do fazer teatro em Portugal.

Dizia Almeida Garrett: «Teatro: Livro dos que não têm livros». No Portugal de hoje, em várias zonas do país, particularmente no interior do país, poder-se-ia continuar a utilizar tal expressão; no entanto, penso que se está na situação de poder dizer-se que os portugueses aí residentes têm acesso a quaisquer tipos de livros, sendo hoje mais fácil encontrar um livro numa biblioteca municipal do que assistir a um espectáculo de teatro, o que me parece dar uma ideia do que é o teatro em Portugal.

Antes e depois do 25 de Abril, durante 10-15 anos após esta data, foi o teatro de amadores que colmatou esta falta de teatro em muitos dos concelhos do país, estando o teatro profissional, sobretudo por razões económicas, confinado a algumas das maiores cidades do país, não tendo valor estatístico, por tão poucas, as companhias que tentaram remar contra a maré e as autarquias, salvo raríssimas excepções, também não se mostraram muito interessadas em levar o teatro ao povo. «… é povo, quer verdade», escreveu Garrett, o que para alguns políticos do nosso país não deixa de ser assustador. E será talvez o momento de voltarmos aos ensinamentos de Almeida Garrett, particularmente ao que ele escreveu na Memória ao Conservatório Real.

Poderia continuar a citar Almeida Garrett com a certeza de que não há melhores palavras para explicitar o drama que continua a viver o teatro em Portugal, quando são passados quase 156 anos sobre a sua morte (9/Dez/1854). Ainda há bem pouco tempo, pude verificar como as suas propostas incomodaram muita gente responsável pela administração de um projecto intermunicipal em que participei.

Ora, a arte efémera que é o espectáculo de teatro obriga a que as produções sejam particularmente cuidadas, já que o espectáculo de teatro se alimenta do instante e vive do entusiasmo sempre novo. Para isso, os criadores conseguiram no apoio político municipal e, sobretudo, estatal o suporte económico para implantar os seus variados projectos, todos discutíveis, excelentes uns, bons outros e também alguns medíocres. A seguir ao 25 de Abril pensou-se «agora é que é!», tudo levando a crer que se tinham juntado as vontades indispensáveis para que o sonho se tornasse realidade.

É o momento para perguntar: que realidade temos nós, portugueses, vivido no que ao teatro respeita?

Em alguns dos programas para as legislativas, os dois principais partidos propunham-se atingir a meta de 1% do Orçamento de Estado para a cultura, o que era o retomar de uma meta antiga fixada pelo PS, mas nunca conseguida. Na verdade, houve um Governo PS que, em 2002, atingiu os 0,7%, mas, por exemplo, em 2005, os 0,6% aprovados representavam, em termos absolutos, um montante para a cultura inferior ao de 2001: 285 milhões de euros contra 294 e, agora, ao que parece, não chega a 0,35%. Quando há que fazer cortes, logo os vários Governos se têm lembrado de cortar no orçamento previsto para a Cultura, quer nas despesas de funcionamento, quer nas verbas previstas para o investimento. A vergonha do que recentemente se passou no Ministério da Cultura, com a justificação da crise que vivemos, que vale para tudo, é bem elucidativa do que pensam os governantes portugueses sobre o necessário desenvolvimento cultural do país, apesar da confissão de José Sócrates, após o fim da última legislatura, quando disse que um dos seus erros havia sido o não ter investido mais na cultura (as palavras não terão sido estas, mas o sentido foi este).

É minha convicção que a cultura é um dos itens fundamentais do desenvolvimento de qualquer país, mas desse a cultura votos e outro galo cantaria. É o momento de lembrar a esses liberais ansiosos por ocupar o poder, sempre a atirar-nos números para cima, que o sector da cultura, em Portugal, representa já 2,8% do PIB, prova clara do seu dinamismo e das potencialidades que mostra para o futuro. O próprio crescimento do emprego nas actividades culturais deveria fazer-nos pensar, sobretudo aos governantes. Este dinamismo não acontece apenas em Portugal, acontece também na União Europeia, como acontecerá noutros continentes, o que me parece demonstrar que não se trata de um fenómeno conjuntural.

O desenvolvimento cultural de um país é também sinónimo de desenvolvimento de qualificações, de que o nosso país tão carecido anda. Basta atentar nas qualificações que eram exigidas para a maioria dos empregos que se tem vindo a perder e nas qualificações que se exigem para os empregos que se vão criando e logo se concluirá pela necessidade de tal desenvolvimento cultural.

Claro que o Estado, através de todos os Governos, lá vai dando algum dinheiro para a cultura, nomeadamente para apoio ao teatro.

Que é insuficiente, todo o mundo o diz, mas interessa saber como esse pouco é distribuído.

Considero também que a tarefa dos vários titulares do Ministério da Cultura não é fácil e, das conversas que tive com alguns deles, disso fiquei consciente.

A cultura, pelo menos no nosso país, é propensa à criação de vários lóbis e o teatro não foge ao que já parece ser uma regra, péssima regra, que contribui ainda mais para a incorrecta distribuição dos poucos dinheiros para os vários apoios.


III

O Decreto-Lei n.º 225/2006, de 13 de Novembro, articulado com a Portaria n.º 1321/2006, de 23 de Novembro, «estabelece o regime de atribuição de apoios financeiros do Estado, através do Ministério da Cultura, a entidades ou pessoas singulares que exercem actividades de carácter profissional de criação ou de programação nas áreas da arquitectura e do design, das artes digitais, das artes plásticas, da dança, da fotografia, da música, do teatro e das áreas transdisciplinares», como pode ler-se no Artigo 1.º do citado Decreto-Lei.

Dos objectivos, definidos no Artigo 3.º, destaco o que se diz nas alíneas:

Assegurar o acesso público aos diversos domínios da actividade artística, concorrendo para a promoção da qualidade de vida, da cidadania e da qualificação das populações;
Descentralizar e dinamizar a oferta cultural, corrigindo as assimetrias regionais, e promover a actividade artística como instrumento de desenvolvimento económico e de qualificação, inclusão e coesão sociais;

Ao analisar-se a distribuição das verbas destinadas a tais apoios, apenas no que ao Teatro respeita, verifica-se de imediato que as grandes fatias são distribuídas a estruturas sediadas em Lisboa e Porto, com realce para a capital. Se a estas verbas juntarmos os orçamentos dos Teatros Nacionais de Lisboa e Porto, então a diferença, para o que resta dos dinheiros públicos para o território nacional, começa a ser escandalosa quanto à política de distribuição. Se o critério que seguirmos para este nosso juízo for a divisão em Grande Lisboa, Grande Porto e restante país, então o resultado obtido torna-se inqualificável, sobretudo quando os objectivos fixados são os que transcrevemos do Artigo 3.º do Decreto-Lei.

Quero com isto dizer que as estruturas daquelas duas cidades recebem dinheiro a mais? De modo nenhum. A verdade é que o dinheiro para a cultura é insignificante e os vários Governos no pós-25 de Abril são muito criativos a produzir legislação e muito pouco interessados, se pensarmos apenas na prática, no real desenvolvimento cultural do país. Para que não haja comparações indevidas, é bom não esquecer que é só este período do pós-25 de Abril que estou a analisar.

Claro que a distribuição dos dinheiros pelas várias estruturas também é demonstrativa de vários compadrios, de grandes injustiças e, podemos mesmo dizer, que algumas dessas estruturas estão a receber apoios que a legislação, se aplicada com rigor, talvez não permita.

Deixo esta questão para outro momento, não só por não estarem aqui representadas todas as estruturas que recebem apoio, muito ou pouco que seja, e também por não querer provocar uma discussão que dificilmente acabaria durante este Congresso e que poderia até gerar conflitos insanáveis.


IV

Voltando à questão principal, que é a incapacidade do Ministério da Cultura para descentralizar, dinamizar a oferta cultural e corrigir as assimetrias regionais, é bom lembrar o preâmbulo do referido Decreto-Lei quando se propõe, com a legislação em vigor, valorizar a rede de cineteatros e outros equipamentos culturais, que inclua a residência permanente ou periódica de entidades de criação artística, assim como promover a fixação de entidades de criação e produção artísticas no interior. Escreve-se ali também que se visa favorecer a articulação entre o apoio às artes e outras políticas sectoriais.

Analisando o que realmente acontece no país, logo se poderá concluir que de boas intenções está o inferno cheio.

Não conheço toda a rede de cineteatros existente no país, referida naquele preâmbulo, mas admito que em tais espaços predomina o chamado teatro à italiana, até por a maioria desses espaços me parecer ser constituída por recuperações de antigos cine-teatros. Em Portugal, também há poucos arquitectos virados para a criação de outro tipo de espaços, mas ainda estão a tempo de aprender com o que fez Nuno Teotónio Pereira em Algés, onde criou o célebre 1.º Acto.

A técnica e as tecnologias admitem novas possibilidades e, ao conceber-se um espaço teatral, hoje, há que pensar em dar a mesma importância à acústica, à luz, ao movimento e à óptica e não esquecer que a cena exige, ou pode exigir, uma outra dimensão e a imaginação dos criadores não pode ver-se limitada por um palco à italiana.

Estarei a ser muito exigente? Haverá criadores, alguns entre nós neste momento, que dirão: «quem me dera ter sempre um palco à italiana!». No entanto, insisto, ninguém me tira da cabeça que com o dinheiro que se tem gasto em alguns destes teatros se poderia ter feito bem melhor. Os Recreios da Amadora é um bom exemplo, assim como me parece que com o dinheiro gasto na recuperação do Teatro Nacional D. Maria II se poderia ter feito trabalho de melhor qualidade, mais adequado à prática teatral e a um total aproveitamento das salas se tivesse havido a humildade de ouvir as pessoas que do teatro fazem profissão.

O que se quer hoje é um espaço em transformação que possa modificar-se segundo as necessidades do momento (a história da Igreja mostra como deve fazer-se: veja-se as transformações que a arquitectura das igrejas tem sofrido, servindo as necessidades e o espírito do tempo – Brasília, Macedo de Cavaleiros, ...). Não se pretendem espaços de betão gigantesco, mas também não se pretendem espaços reduzidos que não permitam a apresentação de bons espectáculos. Lembro-me bem das dificuldades para meter no palco dos Recreios da Amadora o «Tio Vânia», espectáculo estreado na Malaposta, pelo Centro Dramático Intermunicipal Almeida Garrett.

Outro aspecto a ter em conta é o conforto do espectador, e deste conforto o mais importante tem a ver com a possibilidade de apresentar o melhor espectáculo possível. Se o espaço para a cena é, evidentemente, fundamental em qualquer espaço teatral, é indispensável ter outros locais de trabalho: área administrativa, área de ensaios, oficinas, camarins, gabinete para o(s) Director(es), etc. E, pergunto: não deveria também o conforto oferecido ao espectador ser levado em conta aquando da atribuição dos apoios às várias estruturas?


V

Ao falar do Teatro Português e do Teatro em Portugal indispensável se torna falar dos textos (ou será que devemos dizer «pré-textos»?).

Quando se aborda este tema, logo se perceberá a razão por que faço esta distinção: Teatro Português – Teatro em Portugal. De facto, a larga maioria dos textos representados nos palcos portugueses ou nos espaços onde se dão as representações não são de autores portugueses.

Será que haverá muitas pessoas no nosso país que a si mesmas tenham posto esta questão? Há já muito tempo, coloquei-a a um homem do teatro português e a resposta que obtive deixou-me a pensar, de tal maneira que ainda hoje tendo a dar-lhe razão, embora a isso, por enquanto, não tenha chegado. Eis o que me foi dito: «Oh, António, encenar autores portugueses levanta um problema complicado, é muito difícil ver primeiro as suas peças lá fora!» Deixo a pergunta a todos vós: será que aquele homem de teatro tinha razão? É evidente que aquela afirmação peca por exagero e hoje já vai havendo companhias a apresentar peças de autores portugueses e encenadas por portugueses; poucas, é certo, mas já vai acontecendo. Mas não resisto a deixar a provocação, que me dá um certo gozo.

Ainda outra provocação, esta bem mais apropriada. Não caberia ao Ministério da Cultura criar condições para que as estruturas apoiadas fossem levadas a incluir na sua programação textos de autores portugueses? Note-se que recuso a imposição, mas há «mil e uma maneiras de cozinhar bacalhau», como costuma dizer o povo português.

No n.º 1 do artigo 18.º do Decreto-Lei que venho referindo, que trata de apoios complementares, diz-se:

O Ministro da Cultura fixa anualmente, sob proposta do IA, uma verba para apoios complementares à actividade artística principal nas áreas definidas no n.º 1 do artigo 1.º, aos criadores singulares para a edição e formação artística, e às entidades de criação para a edição, formação artística e reequipamento.

Ou seja, quase podemos dizer que só falta na legislação privilegiar como apoio complementar o levar à cena de textos de autores portugueses ou até, o que não me chocaria, textos de autores de língua portuguesa. Nenhuma estrutura teatral ficaria obrigada a encenar estes textos, mas tinham assim mais uma opção de ver aumentado o apoio do Ministério da Cultura.

Sei que alguns perguntarão. «Mas onde estão esses textos?» É chegado o momento de voltar a Almeida Garrett, que escreveu o que hoje ainda, infelizmente, se justifica escrever:

Os leitores e os espectadores de hoje querem pasto mais forte, menos condimentado e mais substancial; é povo, quer verdade. Dai-lhe a verdade do passado no romance e no drama histórico – no drama e na novela da actualidade oferecei-lhe o espelho em que se mire a si e ao seu tempo, a sociedade que lhe está por cima, abaixo, ao seu nível – e o povo há-de aplaudir, porque entende: é preciso entender para apreciar e gostar.

Procurai pois bem nos textos publicados, que são até muitos, e nos textos que esperam, ao menos, publicação e verão que encontrarão alguns textos com as características de que fala Garrett e muitas razões para levar alguns à cena. A prática daí resultante contribuirá também para melhores textos, mais ricos tecnicamente, e, no fim, todos ficaremos a ganhar, a começar pelo Teatro Português. E, quanto a mim, não haveria mais necessidade de invocar a actualidade de Almeida Garrett se se fizesse o que aqui preconizo.

É um facto que a larga maioria dos textos levados à cena no nosso país é de origem estrangeira. É um direito que assiste às estruturas e, graças a esse trabalho, têm-se visto alguns bons espectáculos servidos por textos de autores contemporâneos, alguns dos quais ainda jovens; no entanto, gostaria de ver os grandes textos do teatro mundial a ser representados com mais assiduidade em Portugal. Claro, bem sei, alguns desses grandes textos exigem encenações dispendiosas e grandes actores, mas, caramba, não será possível representar, por exemplo, Shakespeare sem grandes cenários? É evidente que tal exigiria excelentes actores e não menos excelentes encenadores, assim como bons técnicos, nomeadamente bons técnicos de luzes. Não será possível juntar uns e outros na cena portuguesa? Claro que sim, que os há, tornando-se apenas necessário que haja menos capelinhas e mais cooperação.

Sobre o teatro lírico não tenho muito para dizer, culpa minha, dado não o acompanhar com tanta atenção como à restante actividade teatral portuguesa. No entanto, com a nomeação de Mário Vieira de Carvalho para Secretário de Estado da Cultura, fiquei mais esperançoso e, naturalmente, mais atento.

Apesar de um pouco distanciado, sempre foi minha convicção de que os interesses instalados nesta área teatral necessitavam de quem fosse capaz de os enfrentar e de definir um rumo, menos elitista do que aquele que os referidos interesses sempre impuseram, nascendo em mim alguma expectativa aquando da nomeação daquele musicólogo.

Não serei, pelas razões já apontadas, o melhor dos críticos; no entanto, com as alterações que Mário Vieira de Carvalho conseguiu imprimir, naturalmente com o apoio da então Ministra Isabel Pires de Lima, julgo estar em condições de poder dizer que alguns indicadores justificaram aquela expectativa. O Teatro Nacional de S. Carlos conquistou novos públicos graças ao trabalho do novo Director Artístico, Christoph Dammann, não me parecendo que a qualidade artística tenha diminuído, conhecendo-se apenas reacções negativas dos melómanos que com o TNSC tinham uma «relação centenária», como a actual Ministra da Cultura referiu, representativos daqueles interesses de que acima falo, naturalmente preocupados com a possibilidade de os novos públicos conquistados não terem possibilidade de usar os mesmos perfumes. Vou referir apenas alguns dos números relacionados com a actividade daquele Director Artístico do Teatro Nacional de S. Carlos, que permitem alguma reflexão:

Temporada 2006/2007 n.º total de espectadores: 31.402
Temporada 2007/2008 n.º total de espectadores: 47.036
Temporada 2008/2009 n.º total de espectadores: 74.348

Outro número fundamental para melhor se ajuizar acerca das alterações conseguidas é relativo ao orçamento, o qual diminuiu, entre 2007 e 2009, 1,6 milhões de euros, recordando que o orçamento do TNSC foi, em euros, de 5,8 milhões em 2007, de 4,8 milhões em 2008 e de 4,2 milhões em 2009.

Com a nova política definida pela actual Ministra da Cultura para o teatro lírico, quanto é que o Estado vai passar a pagar por cada espectador?

Com o novo Director Artístico, Martin André (contra o qual nada me move e não é ele que agora critico, o que posso vir a fazer mais tarde, embora não o deseje), espero que o trabalho positivo que aquele teatro lírico vinha desenvolvendo não tenha retrocessos. Talvez a Ministra não dure o tempo suficiente para destruir uma obra positiva que naquele teatro se vinha implantando.


VI

Devo falar agora um pouco de formação. Sabe-se que há várias escolas de formação para o teatro, Escolas Superiores oficiais, integradas nos Politécnicos de Lisboa e do Porto, e outras, sendo a mais antiga a Escola Superior de Teatro e Cinema, como herdeira do antigo Conservatório Nacional, com novas instalações há uns anos na Amadora. Para além dessas escolas oficiais, onde se ministram cursos para actores, cursos de realização plástica do espectáculo, cursos de produção e de dramaturgia, há várias outras escolas para a actividade teatral no país, públicas e privadas. Disseram-me que, só no Porto, há pelo menos quatro escolas, de umas e outras.

Pelo que sei da actividade teatral em Portugal, considero que a escolha dos jovens que ao teatro queiram dedicar-se não deixa de ser de um grande risco. Também outro risco constitui a forma financeira que o Estado encontrou para estas escolas, que é proporcional ao número de alunos, levando a que se formem turmas com muito mais alunos do que os que seriam recomendáveis para um ensino de qualidade. Digam depois que a culpa é dos professores, esquecendo esta forma perversa que o Estado encontra para resolver o problema do financiamento.

Terminado o curso, que espera o jovem formado? O mais natural é o desemprego ou a escolha de um emprego remunerado com o ordenado mínimo nacional em qualquer outra actividade. Uma grande percentagem dos que no teatro consigam colocação também não poderá esperar auferir mais do que esse ordenado mínimo.

E que tipo de ensino se ministra nessas escolas?

Admito que haverá escolas onde predominam programas teóricos, outras onde o ensino seja sobretudo prático e outras, como me parece desejável, onde haverá um equilíbrio entre teoria e prática.

Não conhecendo os programas que compõem cada um dos cursos, tendo em conta o papel do teatro na sociedade, não esquecendo que estamos em Portugal e que é do nosso país que tenho vindo a tratar, penso ser de todo indispensável que aos alunos destas escolas seja facultado um ensino que não esqueça os aspectos filosóficos, incluindo aqui os estéticos, os aspectos psicológicos, sociológicos, pedagógicos e também económicos. Deverão ser-lhes ministrados conhecimentos que alarguem as suas competências de modo a poderem ocupar outro tipo de vagas no mercado de trabalho: investigador, professor, documentalista, bibliotecário e até conselheiro literário, embora as editoras portuguesas não sejam muito abertas a criar vagas para tal profissão. Também, julgo eu, se justifica perguntar se, nas escolas de gestão, há a preocupação de tratar da formação em gestão das artes do espectáculo.

Obviamente, o que seria desejável é que estas escolas se preocupassem, em exclusivo, em formar pessoas para a actividade teatral, como actores, encenadores, cenógrafos, dramaturgos, mas tem de se ter presente a realidade do nosso país e criar condições para que os jovens consigam construir uma vida com o curso que ali tiveram oportunidade de concluir.

Tendo em conta as escolas existentes, também aqui o Estado deveria ter outro tipo de intervenção, perfeitamente justificado até pelo dinheiro que aplica nas várias escolas oficiais para esta actividade. O que deveria ser um investimento, transforma-se num gasto para os depauperados cofres desse mesmo Estado, gasto este pago com os impostos sacados aos contribuintes portugueses, sobretudo àqueles que trabalham por conta de outrem, sem qualquer hipótese de fuga ao fisco como muita gente rica, a começar pelos grandes investidores na bolsa, que até chegam a escapar ao pagamento de impostos de forma legal (ver, a este propósito, o meu artigo, em http://estrolabio.blogspot.com, «Eles, os poucos de sempre, comem tudo e nós, os restantes,…pagamos!», ali publicado em Agosto deste ano).

Por que não, nos apoios complementares às estruturas teatrais, criar a hipótese de beneficiar, por um período determinado, uma estrutura por cada jovem saído daquelas escolas com o seu curso concluído e que ali fizesse o seu estágio ou obtivesse o seu primeiro emprego?

Por que não criar, nos dois Teatros Nacionais, uma possibilidade de apoio a estes jovens para ali darem início a uma profissão para que se mostraram dotados? Poderiam os Teatros Nacionais, com apoios específicos para tal fim, criar pequenas estruturas onde estes jovens pudessem mostrar as suas capacidades, estruturas essas que poderiam ser constituídas apenas por esses jovens e, sempre que necessário, com o contributo de outros encenadores, actores e técnicos dos contratados pelos Teatros Nacionais. Também poderiam essas estruturas ser, logo à partida, reforçadas com este contributo para uma troca de experiências em que uns, os jovens, e outros, os mais experientes na profissão, teriam, com certeza, muito a aprender.

Há ainda uma outra interrogação que não posso deixar sem referência.

Qual a razão por que se autorizaram tantas escolas, públicas e privadas? No que respeita às escolas privadas, pode-se considerá-las como um negócio em que alguém apostou com capitais próprios e que se sujeita a perdê-los, mas quando se fala de escolas públicas já a análise pode ir mais longe, responsabilizando os vários governos que as legalizaram, dando mais um exemplo de má aplicação dos dinheiros públicos que são de todos nós. Não passam de escolas que vão formando centenas de jovens para o desemprego.

Não é chegado o momento de responsabilizar os políticos que tomam decisões asnáticas, que não tenham em conta a verdadeira realidade do país?


VII

Do que se diz no capítulo anterior, logo se pode inferir que tipo de segurança no trabalho existe para quem do teatro quer fazer profissão e que, cheio de esperança, ingressou numa das escolas existentes no país.

Que dizer então dos profissionais de teatro em Portugal? Profissionais que nem direito têm a uma carteira profissional. Por muito triste que seja dizê-lo, a situação dos profissionais de teatro no tempo do fascismo estava mais acautelada, embora isto não signifique que estes profissionais tivessem alguma coisa a ganhar com o regresso àquele tempo. Permite, no entanto, apontar a incúria dos vários governos do pós-25 de Abril, alguns dos quais formados por partidos que se reclamam do socialismo.

Ouve-se dizer que os actores de teatro têm agora a oportunidade de ganhar muito dinheiro na televisão. Para além de não ganharem os dinheiros que se pensa, é bom lembrar que se trata de um trabalho precário, para além de muitas telenovelas terem elencos constituídos por gente jovem que, nessas telenovelas, vai ganhando prática de representação e que, salvo raríssimas excepções, não tem condições técnicas para a sua inclusão em qualquer elenco teatral. Lembro também que muitas das telenovelas que passam na televisão nem sequer são produzidas em Portugal.

As pessoas que do teatro fazem profissão, actores e outros, são contratados a recibos verdes, muitos deles não auferindo mais do que o ordenado mínimo nacional, durante o tempo em que têm trabalho, pois nenhuma estrutura está em condições de assegurar a todos trabalho durante todo o ano. Deste ordenado, as companhias retêm o IRS, vivendo estes profissionais do que resta. Deveriam pagar também para a Segurança Social, mas quantos o fazem? Claro que, enquanto jovens, muitos não pensam nesta questão, mas é altura de lembrar, sem querer ser dramático, que nós, humanos, somos seres para a morte, mesmo que acreditemos, o que não é o meu caso, que há uma outra vida, plena de felicidade, para além da morte.


VIII

Não posso finalizar esta minha comunicação sem falar de algo que me é muito caro: o Teatro de Amadores, servindo-me de partes do que já, em tempos, escrevi sobre esta matéria.

Falar de Teatro de Amadores (e não Teatro Amador), ou seja, dos que por amor fazem teatro, pode remeter para a área da animação sociocultural e/ou para a da divulgação cultural descentralizada.

Tempo houve em que o Teatro de Amadores tinha o respeito do País, dos meios intelectuais, do público em geral e dos meios de comunicação social. Depois do 25 de Abril, conquistou mesmo o respeito do poder político, de quem obteve ajudas financeiras e alguns meios técnicos.

Também os partidos políticos, sabedores de que as actividades desenvolvidas pelos Grupos de Teatro de Amadores dão o seu contributo nas transformações qualitativas ao nível do consciente, tentaram dominar a sua organização, a APTA – Associação Portuguesa do Teatro de Amadores, sem qualquer êxito. O movimento tornou-se forte. Fizeram-se Festivais de Teatro de Amadores que sempre tiveram o apoio dos vários públicos, de algumas Câmaras Municipais, de uns tantos Governos Civis, como o de Viana do Castelo, da Fundação Calouste Gulbenkian e também da Secretaria de Estado da Cultura, embora não tanto como o movimento então merecia. Fizeram-se cursos dirigidos por grandes encenadores europeus, nomeadamente em Portugal: Santarém, Covilhã, Areia Branca, este último com a colaboração do Ministério da Cultura da ex-RDA. Participou-se em Festivais Internacionais e em vários cursos fora do País. Lembro, por exemplo, a participação do Grupo de Teatro de Amadores Combate do Cartaxo, no Festival Mundial de Teatro de Amadores no Mónaco, com o «Sonho do Palhaço», proporcionador de muitas manifestações de contentamento de várias delegações de diferentes países e, não posso deixar de o mencionar, até pelo contraste, das palavras extremamente simpáticas que me foram ditas pela Princesa do Mónaco, a tão conhecida Grace Kelly, que previamente me havia confirmado a sua presença no espectáculo, para o que nunca necessitou de emissários. Foi aliás uma presença constante nos espectáculos do Festival, o mesmo não podendo dizer-se do seu marido, apenas presente quando os espectáculos aconteciam na Sala Garnier, no mesmo edifício do célebre Casino do Mónaco. Em Portugal, o único governante que vimos acompanhar o Teatro de Amadores com interesse foi o António Reis.

Na era cavaquista, cujos malefícios para o país a História há-de um dia registar, os apoios governamentais já não foram os mesmos, mas, verdade seja dita, a culpa não foi apenas do poder político. A estrutura montada, com as Associações Regionais, poderia resistir. No entanto, alguns dos grupos mais fortes e mais implantados tiveram a ilusão da profissionalização, a comunicação, televisão e imprensa escrita e falada, ajudou e os grupos foram ficando cada vez mais isolados. Hoje continuam a existir muitos grupos de teatro de amadores, mas não existe o movimento do teatro de amadores. Algumas Câmaras Municipais, não em todos os concelhos onde os grupos existem, vão apoiando e a imaginação dos seus elementos faz o resto.

O historiador José Mattoso, numa importante entrevista à revista Ler de Setembro/2010, diz, em determinado momento: Uma das coisas curiosas e surpreendentes foi descobrir que aos fins-de-semana é frequente encontrar (…) pessoas que formam grupos para fazerem percursos pedestres ou que criam pequenos grupos de teatro. São grupos que muitas vezes não sabem uns dos outros. Eu interpreto isso como uma geração espontânea de sinais positivos, cujo resultado global é impossível de imaginar. Creio que as transformações sociais se dão por agregação de pequenos fenómenos. Até ao momento em que se chega a um ponto crítico. Se a agregação atinge uma determinada percentagem, que é impossível de prever à partida, dá-se uma alteração profunda. E mais à frente, diz ainda José Mattoso: são esses pequenos grupos que têm uma atitude positiva diante do futuro e do mundo. Naturalmente é nisso que ponho a minha esperança cheia de interrogações. É esperança, não é expectativa. Era isso que eu gostava que se fortalecesse.

Compete-nos, a nós, ajudar a concretizar esta esperança do historiador. Organizar uma nova associação do teatro de amadores é dar também um importante contributo para a necessária alteração profunda de que nos fala José Mattoso.

Agora, há que colher as lições com a história recente do teatro de amadores e torná-lo de novo num movimento forte. O INATEL poderia ser, no momento, a organização que poderia dar um dos maiores impulsos para que as potencialidades que existem se transformassem e o desejado movimento ressurgisse.

Para além dos próprios grupos, as Escolas e os seus Professores, as Associações de Pais e as Autarquias, as Associações Ecologistas e as Associações Recreativas/Desportivas deverão também ser chamadas a dar o seu contributo.

Quantos dramas se vivem no seio das famílias e das comunidades que se poderiam evitar se aos jovens fossem dadas condições para desenvolverem uma actividade tão enriquecedora como é a do teatro de amadores?

O teatro profissional, se ambiciona implantar-se em todo o País, não pode continuar a ignorar os grupos de teatro de amadores.

É verdade que as dificuldades de relacionamento entre os amadores de teatro e os profissionais são um facto de sempre, sobretudo quando alguns dos componentes das estruturas profissionais não passam de amadores que fazem teatro, ou seja, não passam de «sapateiros a tocar rabecão». Os amadores de teatro necessitam de espaços para apresentarem os seus espectáculos e, neste campo, os profissionais de teatro, gerindo bem os espaços de que dispõem, poderão conseguir uma aproximação que a todos será proveitosa, não só por manter tais espaços abertos às populações, mas também por o teatro de amadores poder desempenhar com mais facilidade um dos seus papéis, que é o de atrair públicos para a frequência do teatro, para a criação do hábito de ir ao teatro e, ainda, e muito importante, pode também proporcionar o contacto entre todos os intervenientes: entidades referidas, populações que vivem nas áreas abrangidas, tornando possível a discussão e a solução de problemas que a todos interessam. Se os profissionais de teatro disponibilizarem os seus espaços e se, com a humildade dos inteligentes, derem também um contributo para a solução de alguns problemas técnicos que os amadores de teatro vivem, estará dado um passo importante para a confiança se implantar. Outra das razões, que os amadores de teatro dificilmente confessam, tem a ver com as concepções estéticas de alguns espectáculos profissionais que os confundem e, consequentemente, os intimidam (claro que não estamos a falar de todos os amadores de teatro, mas de uma percentagem razoável que vive espalhada pelo País). É de lembrar também que, muitas vezes, os amadores de teatro se sentem lesados por verificarem que também os profissionais, instalados ou não na sua região, se dirigem às mesmas entidades públicas na solicitação de apoios, sobretudo financeiros. Se o que atrás se diz se verificar, esta questão perderá grande parte da sua importância.

Completando algo que atrás já aflorei, os amadores de teatro são fundamentais na conquista de públicos, dado que cada vez mais as portas das escolas se lhes abrem e também por haver uma enorme percentagem de portugueses que viu teatro graças à actividade desenvolvida pelos amadores. Os profissionais devem meditar neste aspecto e não podem esquecer que os amadores se vêm tornando cada vez mais exigentes, mesmo no campo estético, por cada vez mais os grupos de teatro de amadores serem constituídos por pessoas com um grau cultural bem mais elevado do que há alguns anos, graças ao seu esforço pessoal, à sua cada vez maior formação escolar, inclusive universitária, mas também devido aos cursos de formação virados para o teatro, em Portugal e no estrangeiro.

A arrogância de muitos amadores de teatro no contacto com os profissionais tem mais a ver com a intimidação que acima se refere e também por sentirem que, de um modo geral e no que ao teatro diz respeito, sabem muito pouco em comparação com os profissionais; a arrogância dos profissionais no contacto com os amadores é, geralmente e culturalmente falando, fruto de uma grande ignorância.

Quer os profissionais, quer os amadores de teatro têm de assumir as suas diferenças. Se é verdade que os amadores têm de ter consciência que não podem competir tecnicamente com os profissionais, é bom que os profissionais não esqueçam que, como nos ensina Manfred Wekwerth, muitas vezes os amadores «representam frequentemente o que observam com mais frescura». Os amadores de teatro devem procurar dar largas à sua espontaneidade e não procurar imitar os profissionais. Os profissionais, como lembra o autor citado, representam muitas vezes com os gestos de sempre: «há gestos para o amor, para a alegria, a indignação dos gestos a toda a prova transmitidos por uma longa tradição, ...».

Outra das questões fundamentais tem a ver com o prazer de representar. É verdade que muitos dos amadores de teatro encontram nesta actividade a sua forma de intervir na comunidade a que pertencem, mas não é menos verdade que o prazer de fazer teatro está sempre presente. Passar-se-á sempre o mesmo com os profissionais?



Portela (Sacavém), 19 de Setembro de 2010

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Descrição

Comunicação de António Gomes Marques, ex-director da Associação Portuguesa de Teatro de Amadores, no contexto do I Congresso sobre o Estado do Teatro em Portugal, organizado pela Intervenção – Associação para a promoção e divulgação cultural, de 12 a 14 de Novembro de 2010 na Escola Superior de Tecnologia e Gestão em Viana do Castelo.

Local

Portela (de Sacavém)

Data

19 de Setembro de 2010

Tipologia

Ensaio

Arquivo

Arquivo Pessoal de António Gomes Marques