
Apresentação inaugural do Centro Dramático Bernardo Santareno, no Teatro Sá da Bandeira, em Santarém, a 27 de Março de 1990.

António, criação colectiva do Centro Dramático Bernardo Santareno, a partir de vários textos de Bernardo Santareno, 1990.

A Mosqueta, pelo Centro Dramático Bernardo Santareno, 1991.

A Purga, pelo Centro Dramático Bernardo Santareno, 1993/1994.

Quem tem Farelos, pelo Centro Dramático Bernardo Santareno, 1995.

O que aconteceu nas terras dos Procópios, pelo Centro Dramático Bernardo Santareno, 1995.

SÓS, pelo Centro Dramático Bernardo Santareno, 1997.

Nu Passa Disto, pelo Centro Dramático Bernardo Santareno, 2000.

Pensa Nisto, pelo Centro Dramático Bernardo Santareno, 2002.

O Sonho de Alice, pelo Centro Dramático Bernardo Santareno, 2002.

D. Quixote, Quem és tu?, pelo Centro Dramático Bernardo Santareno, 2004.

A Noite dos Assassinos, pelo Centro Dramático Bernardo Santareno, 2007.

O Punho, pelo Centro Dramático Bernardo Santareno, 2016/2017.

Adeus Pessoa, pelo Centro Dramático Bernardo Santareno, 2018.

Lusitanos pelo Curso de Iniciação Teatral do Centro Dramático Bernardo Santareno, Junho 2018.
Corria o ano de 1989, em Santarém presidia a autarquia o Dr. Ladislau Botas e à frente do pelouro da cultura a Dra. Graça Morgadinho. O Veto Teatro Oficina e o Teatrinho de Santarém marcavam a atividade do panorama teatral da cidade. A Companhia de Teatro de Santarém (C.T.S.), projeto profissional em atividade desde 1982, registava na sua ata de Fevereiro de 1987 que “o C.T.S. interromperá a sua atividade, até haver condições naturais para o seu reaparecimento”. Dois nomes pontuavam neste final adiado, António Gomes Vidal que continuaria a representar legalmente a Companhia e José Pedro, que devido à sua situação profissional não podia continuar a prestar o seu apoio ao C.T.S. Outro projeto teatral tinha surgido entretanto no Centro Cultural Regional de Santarém, dirigido pelo Paulo Cruz, que também não teve continuidade. Em 1988, a Secção de Teatro do Alvitejo em Vale de Figueira levava à cena António Marinheiro de Bernardo Santareno, encenação de José Manuel Rodrigues e cenografia de José Pedro. Porquê este enquadramento? Porque são estes alguns dos nomes que vão formar o grupo, juntamente com o Carlos Oliveira e mais alguns amigos(as), que durante o ano de 89 vão congeminar a ideia de organizar um projeto teatral de maior envergadura para a cidade.
Considerando a forte tradição teatral que sempre caracterizou a vida cultural da cidade e do concelho, impunha-se a ideia de retomar esse projecto, que apontasse para uma via profissionalizante, com uma maior visibilidade nacional, reunindo a possibilidade de incluir outras valências artísticas para além do Teatro, numa matriz semelhante ao que estava na altura em voga, um centro dramático. Entre estas ideias que germinavam à mesa do Café Brasileira, havia uma que reunia todos os consensos, a denominação do grupo deveria homenagear e fazer justiça a essa figura maior do Teatro contemporâneo nacional, o escalabitano Bernardo Santareno. O objetivo principal era sem dúvida o de produzir e divulgar espectáculos de Teatro para públicos de todas as idades em Santarém, através deste “novo grupo” que passaria então a denominar-se, Centro Dramático Bernardo Santareno (CDBS). De acordo com as “negociações” com a autarquia, o CDBS ficaria com a sua sede social no Teatro Sá da Bandeira (ata nº 13 de 27/11/1989) e a sua primeira representação pública, seria obrigatoriamente baseada na obra do dramaturgo que nos inspirava e dava o nome.
O Centro Dramático Bernardo Santareno fez a sua apresentação pública em 27 de Março de 1990, Dia Mundial do Teatro, no antigo Teatro Sá da Bandeira, em Santarém, com o apoio da Câmara Municipal de Santarém, nas pessoas do seu Presidente, Dr. Ladislau Botas e respectiva Vereadora da Cultura Dra. Graça Morgadinho. O protocolo então firmado com a Autarquia consistia num apoio pecuniário anual em troca de um número específico de espectáculos, quarenta, entre os quais, se estipulava a vinculação de apresentar vinte e cinco espetáculos para o público escolar infantil nas escolas do 1ª Ciclo do concelho. Também se acordou com a utilização do Teatro Sá da Bandeira como sede e residência do CDBS. O Dia Mundial do Teatro, 27 de Março, passaria assim a marcar o nosso aniversário, situação que se manteve até hoje, passados que são vinte e oito anos de atividade. Também foi neste dia, no ano de 1990, que se elegeram em assembleia geral, os primeiros corpos gerentes do CDBS (ata nº 14), a saber:
Assembleia Geral (António Henriques Gomes, Maria Madalena Vassalo, Célia Rodrigues Vicente); Direção (José Luís Pedro, José Manuel Rodrigues, Paula Cristina Lopes); Conselho Fiscal (Manuel Martinho Lopes, Maria Violeta Gomes, António Fonseca Correia).
A primeira produção teatral, “António”, estreou em Novembro de 1990, uma construção dramatúrgica a partir de diversas obras de Bernardo Santareno, seguindo uma estrutura com características biográficas, cuja espinha dorsal se baseava na obra “Português escritor 45 anos de idade”. Foi um espetáculo que pretendia homenagear Bernardo Santareno (António é o seu primeiro nome próprio), com grande impacto visual e de grande plasticidade, construção cénica volumosa (José Pedro), elenco numeroso maioritariamente amador, teve excelente recetividade por parte do público em geral. O CDBS dava assim os seus primeiros passos na sua afirmação em Santarém, como companhia residente do Teatro Sá da Bandeira, renovando deste modo a atividade desse velho teatro. O elenco do “António”, era assim constituído: Carla Cunha, Paula Nunes, Adelaide Alves, Ana Blazer, Magda Tavares, Madalena Vassalo, Gomes Vidal, José Pedro, Paulo Cruz, Carlos Oliveira, José Manuel Rodrigues, Simão Dias, Paulo Patricio, Paulo Neto. Na técnica José Gaspar e na carpintaria de cena, mestre Quintino Suspiro.
As atividades dos dois anos que se seguiram caracterizaram-se pela parceria com o Teatrinho de Santarém (inicialmente proposto como Unidade de Infância do CDBS) de que resultaram excelentes produções tanto para público infantil (Rei Lambão, José Vaz; O Pássaro Branco, Maria Rosa Colaço, 1992) como para o público geral (A Mosqueta, Ruzante, 1991 e Aldeia dos Doidos, anónimo do séc. XVIII, 1992). Paralelamente à produção teatral, este período de cooperação entre os dois grupos, foi particularmente profícuo na promoção de ações de intercâmbio presencial com grupos estrangeiros e pela realização em Santarém de diversas acções de formação destinadas ao elenco e ao público interessado. Tivemos então a presença de formadores de renome internacional: Bodil Larsen (Dinamarca) em 1990, Niels Damkjaer (Noruega) em 1991, Marco di Steffano e Brigitte Cristensen (Itália) em 1992. Em 1995, já com o CDBS e o Teatrinho a seguirem os seus percursos autonomamente desde 1993, tivemos a presença de F. Gulbrandsen (Noruega), Montse Sala (Espanha), Marie Bolková e M. Slavik (Rep. Checa).
Destes dois anos iniciais, com o CDBS e o Teatrinho em parceria, ultrapassadas as polémicas e opiniões mais ou menos favoráveis de então, gostaria de ressalvar em jeito de reflexão, a faceta colaborativa entre as duas associações, o espírito de inovação, criatividade e de capacidade de trabalho, que caracterizou este período da vida teatral da cidade, particularizando de forma excecional essa ideia original de juntar os elencos e os criativos dos dois grupos, para a prossecução de um mesmo fim, fazer teatro em Santarém. Ainda bem que o tempo nos deu razão, pois cada um seguiu o seu caminho naturalmente, com o sucesso e mérito devidamente reconhecidos, sendo que hoje (há muitos anos diria) é perfeitamente normal acontecerem eventos teatrais com a colaboração de ambos os grupos, ou com quaisquer outros grupos da cidade.
Entre 1993 e 1995 o CDBS procura a afirmação progressiva no âmbito da actividade teatral tanto na cidade escalabitana como fora dela, apostando agora numa estrutura de trabalho mais reduzida, com dedicação quase exclusiva, apontando claramente os seus objectivos para a profissionalização total da companhia. Neste contexto e dando continuidade ao protocolo assinado com a autarquia, apostou-se cada vez mais na itinerância das produções. A pensar no público infantil, levou-se à cena “O Cantar de Galos” (1994) de Paul Maar, que correu grande parte das escolas do concelho e de forma muito significativa por diversos teatros do distrito. Para o público adulto, “A Purga”, 1993/94, texto e canções originais de José Manuel Rodrigues, foi na altura a grande novidade em Santarém. Espectáculo diferente pela proposta estética e arrojado pela sua temática, centrava-se na problemática da marginalidade, da toxicodependência, dos desvios do amor e dos perigos da SIDA, questão ainda tabu e bastante “guetizada”. “A Purga”, onde José Pedro nos revelou todo o seu talento, para além de constituir uma aposta num autor da casa, reuniu diversos músicos da cidade (obrigado a todos, João Soeiro, Carlos Velez, Francisco Lopes e um obrigado muito especial ao professor Lúcio Ferreira de Pontével/Cartaxo), trouxe ao teatro novos públicos, principalmente jovens, e deu-nos maior reconhecimento fora do distrito, graças a uma itinerância bastante profícua, como as apresentações no Teatro Trindade em Lisboa, no Luísa Todi em Setúbal, no Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus, em Braga, Santarém e muitas outras localidades. Do elenco faziam parte, José Pedro, Paula Nunes, Pedro Filipe e Ana Pedro. O José Gaspar e o Paulo Neto faziam a técnica.
Este trabalho iria colher os seus frutos e o consequente reconhecimento com a atribuição de subsídio nos concursos pontuais de 1995, do IAC/MC, no âmbito do programa para a descentralização do teatro. Esta golfada de ar fresco (a respiração é essencial no teatro) permitiu a profissionalização tão ambicionada da companhia, a regularização oficial de contratos com o elenco, a aquisição de algum material técnico e de um transporte próprio e principalmente, o contacto com esse mundo mais real e vasto do Teatro, através de mais itinerância e de mais parcerias com outras companhias nacionais. Mas este ano de 1995 viria a tornar-se um ano aziago para todos nós, pois a morte acidental e prematura do director artístico José Pedro durante o mês de Julho, veio quebrar o desenrolar normal do projeto e colocar o elenco e a direcção numa situação bastante instável. A dor foi forte e a saudade ainda por cá anda, mas a vida no CDBS tinha de continuar e após as conversações com o Dr. Carlos Avilez, na altura à frente do IAC/TN, o projecto proposto poderia continuar, agora com a responsabilidade da Direcção restante, assumindo o cargo de Director Artístico e presidente da Direção José Manuel Rodrigues (até aí com o cargo de vice-presidente). Apesar dos infortúnios, as actividades propostas foram cumpridas e os espectáculos de 1995 foram realizados: “Quem tem farelos”, Gil Vicente; “O que aconteceu nas terras dos Procópios”, Maria Alberta Menéres e “Santareno”, textos de Bernardo Santareno. As críticas boas e más surgiram como é usual nestes casos, mas o apoio pontual do MC, esse, sempre que nos candidatámos, nunca mais nos foi atribuído. O primeiro elenco profissional do CDBS neste ano de 1995 foi o seguinte: José Pedro, Alexandrina Batista, Paulo Patrício, Pedro Filipe, Amélia Cabaço e mais tarde José Lobato e Carla Loubet; carpinteiro de cena: Quintino Suspiro; técnicos: Paulo Neto, José Gaspar, Hélio Quaresma; secretariado: Ana Vicente.
A segunda metade do ano de 1995 foi deste modo um ano atípico, que obrigou a Direção a solucionar novas situações que não previra: a eleição de uma nova Direcção e respectivos órgãos associativos (Assembleia Geral: Cremilde Salvador, Madalena Vassalo, Célia Vicente; Direção: José Manuel Rodrigues, Paula Lopes, Simão Dias; Conselho Fiscal: Manuel Martinho, António Correia e Quintino Suspiro), ata nº 17; a conclusão do processo de legalização jurídica e fiscal do CDBS, com a publicação no DR III Série nº232 de 7/10/95 dos seus estatutos e respetiva formalização da denominação de Centro Dramático Bernardo Santareno. O ano concluiu-se com o pagamento de todas as dívidas ao elenco, segurança social e contribuições fiscais e a realização de quase toda a totalidade da programação dos espetáculos propostos. No entanto estava em causa a continuidade da estrutura profissional nos moldes de 1995, principalmente se o novo projeto de atividades não fosse subsidiado pelo MC em 1996. Infelizmente estes receios vieram a confirmar-se e a nova direção do CDBS, sem os subsídios tão necessários do Ministério da Cultura, contando essencialmente com o apoio protocolado com a Autarquia de Santarém, com as vendas de espetáculos um pouco por todo o país, com o apoio de outras Instituições da cidade e ainda com o apoio da grande maioria dos actores, actrizes, colaboradores e amigos do CDBS, considerou positivamente o risco de dar continuidade ao trabalho de um elenco a funcionar a tempo inteiro como trabalhadores independentes. Mantinha-se assim vivo o objectivo recentemente conseguido de ter em actividade em Santarém uma companhia a trabalhar a tempo inteiro. A manutenção de uma estrutura com estas características, apesar de todas as dificuldades que fomos ultrapassando, manteve-se entre 1995 e o ano de 2009, embora com um elenco que forçosamente se foi reduzindo.
1996 foi então o ano da tão necessária readaptação do elenco face às novas condições contratuais (trabalho independente), mas também se caracterizou por uma entrada significativa de novos actores e actrizes, (Maria João Martins, Sónia Gomes, Dulce Grácio, Carla Reis, Sónia Ruivo, João Pedro Cunha, Duarte Brás, Paulo Arruda) em grande parte oriunda das ações de formação ministrada pela “OPT – Oficina de Produção Teatral”, recentemente formada e dirigida por Paulo Cruz, elemento cofundador do CDBS e que sempre esteve entre os colaboradores e amigos desta associação. Foi também sob a sua direção que se estreou a peça “Não se paga, Não se paga” de Dario Fo, um espectáculo com características irreverentes, de crítica política e social, que nos trouxe novamente a possibilidade da itinerância num tom de comédia. Nesta fase, também se revelou de grande importância para a vida do CDBS a realização de peças de teatro para o público infantil. Sucederam-se assim diversas produções de teatro para a infância, iniciando-se aqui algumas experiências com o teatro de bonecos. Destacaram-se nesse trabalho criativo e original o Paulo Patrício e o Paulo Cruz com diversas propostas de espetáculo então apresentadas, “Circo de Papel” em 1995, “Chapéu, Laço e Cartola” em 1996, “O Palhaço e a Sombra” em 1997, “A Receita” em 1998. Ainda no âmbito do Teatro para a infância realizaram-se diversas peças de autor como “Jerónimo e a Tartaruga” (1996) de Catherine Dasté, “O Mosquito ZZZ” (1997) de Orlando Neves, “Do Cimo deste Telhado” (1998) de António Couto Viana. Foram anos de grande produção teatral, o que permitiu manter uma estrutura que maioritariamente conseguia auferir algum rendimento proveniente da venda de espetáculos. Entre estes, a produção para público escolar revelou-se de grande importância pela componente financeira que fortaleceu as capacidades do grupo, através da venda de diversos pacotes de espectáculos para escolas e para várias autarquias. Também nesta perspetiva, o cumprimento do protocolo anual com a autarquia escalabitana, vinte e cinco espectáculos (entre os quarenta totais) para as escolas do 1º ciclo do concelho, permitiu-nos levar o teatro a um grande número de crianças, numa linha lúdica, pedagógica e de formação de novos públicos.
Até 1998/99, o CDBS conviveu de muito perto com outro problema, a degradação acelerada do velho Teatro Sá da Bandeira, a nossa residência desde 1990. Esta situação culminou com a proibição de se realizarem espetáculos no teatro, por razões de segurança, servindo o espaço, durante algum tempo, apenas para os nossos ensaios e como oficina para arrumações. Com o início das obras tão desejadas no Sá da Bandeira, o CDBS passou a utilizar, provisoriamente, o antigo palco do folclore no “Campo da Feira”, com condições insuficientes, dividindo o espaço com o Teatrinho de Santarém. Foi uma solução de recurso que durou até 2005, já depois da inauguração do novo Teatro Municipal Sá da Bandeira (2004), quando nos foi concedida a alternativa, ainda provisória, de ocupar as instalações do edifício antigo do Canto da Cruz, face à imposição legal do novo regulamento do Teatro Municipal, onde não era possível a existência de uma companhia residente, como nos foi explicado pela tutela de então. Até hoje, manteve-se apenas o nosso endereço postal no Teatro referido, por razões estatutárias do CDBS, promulgadas em Diário da República (DR III Série nº232 de 7/10/95). Foi um período de “casa às costas”, prolongado ainda por uma nova mudança para o Salão dos Bombeiros Municipais, quando das obras de renovação do espaço do Canto da Cruz, situação que apenas terminou quando da inauguração do novo edifício do Associativismo/Conservatório (2014), onde nos foi cedido, enquanto associação cultural sem fins lucrativos, uma sala/escritório. Esta, se nos solucionou o problema de um espaço para sede, apenas respondeu parcialmente às necessidades para arrumações e ensaios. Justamente se deverá dizer que até hoje, em conjunto com os serviços culturais da Autarquia, foram-se encontrando as soluções possíveis e que, sempre mantivemos as melhores relações com o Teatro Municipal Sá da Bandeira, onde anualmente procuramos integrar a sua programação nos moldes regulamentados para todos os agentes culturais.
Esta fase bastante instável do CDBS, do ponto de vista logístico e administrativo, revelou-se bastante peculiar e profícuo do ponto de vista artístico, pela resposta bastante positiva de um elenco que com grande motivação, grande empenho profissional e pessoal, foi criando as condições possíveis para manter um grupo fixo, a trabalhar a tempo inteiro, como sempre objetivámos para o nosso funcionamento. Com o apoio continuado da Autarquia e de outras Instituições da cidade, com a venda de espetáculos por todo o país, apoiados pelos amigos de sempre, pagos a tempo inteiro, a meio tempo ou por amor à causa, apostou-se num reportório bastante diversificado, alargado a todos os públicos, abarcando temáticas e projetos interventivos de cariz social, formativo e de entretenimento pedagógico.
Apresentaram-se então os espetáculos no auditório do Instituto Português da Juventude de Santarém, intervalados por uma preciosa cedência do Teatro Taborda do Círculo Cultural Scalabitano, para as primeiras representações da revista “Nu Passa Disto” (2000) do ator/encenador Carlos Miguel e para o espetáculo de homenagem ao Zé Pedro “A Teia da Vida” (2001). Subiram então à cena vários espetáculos de grande qualidade, que pela sua abrangência temática e criativa, pela originalidade de alguns textos inéditos, trouxeram-nos de volta à plateia um maior número de público adulto, que nem sempre é fácil de aliciar em Santarém. São exemplo deste reportório, “Sós ”(1997) encenado por Paulo Cruz, três peças de Jaime Salazar Sampaio, autor que nos visitou e apoiou pessoalmente o trabalho de preparação e com quem tivemos o prazer de aprender com a sua vasta experiência de dramaturgo; “As Vedetas” (1998) de Lucien Lambert com Paula Nunes e Carla Reis; “O Homem da Flor na Boca” (1999) de Luigi Pirandelo, numa das muitas comemorações do Dia Mundial do Teatro e nosso aniversário; KO (2000) original do nosso companheiro e associado Gomes Vidal; “Nu Passa Disto” (2000), teatro de revista, texto e encenação do conhecido ator Carlos Miguel, género teatral completamente novo para nós, que se revelou bastante apelativo pela experiência, pelos ensinamentos do Carlos Miguel, pela parceria com a banda que tocava ao vivo os originais da peça (João Madeira, Paulo Miranda, Fernando Piedade e José Paulo) e pela vivência em palco entre o elenco (Fernanda Narciso, Paula Nunes, Carla Reis, Paulo Cruz, Paulo Patrício e Pedro Oliveira) e o corpo de dança (Paulo Stoffel, Catarina Silva, Filipa Ferreira e Inês Stoffel); “As Bem Aventuranças” (2002) texto original de Fernanda Narciso, então no elenco fixo da companhia; “Novecentos” (2002) adaptação do texto de Alessandro Barrico, um monólogo exemplar do ator Pedro Filipe e música de João Madeira. Para o público infantil estreámos também no palco do IPJ "Os músicos de Brémen" (1999) dos Irmãos Grimm, “É um regalo na vida à beira d’água morar” (1999) de António Couto Viana, peça de bonecos que seria a produção mais representada do CDBS, várias vezes reposta por diversos elencos ao longo de uma década; ainda em 2000, com encenação de Paulo Cruz, “Eu, Tu, Ele, Nós, Vós, Eles” de Ségio Godinho. Também foi neste período que se juntou ao elenco a atriz, escritora, artista plástica, Fernanda Narciso, cujo trabalho ao nível da adaptação e encenação de produções para público infantil, marcaram de forma muito significativa e com grande qualidade o teatro apresentado pelo CDBS para gente jovem. Foram milhares de crianças que assistiram a estas produções que regularmente, durante cerca de nove anos, estrearam na Expocriança do CNEMA, certame de saudosa memória com quem trabalhámos em parceria de 2000 a 2009. São exemplo desta atividade da Fernanda Narciso, “Patu no Lago de Cristal” (2001), “O Sonho de Alice” (2002), “As Aventuras de Gulliver” (2003), “D. Quixote quem és tu?” (2004). Entre 2005 e 2009 foram apresentadas mais quatro produções, “Onde vais Capuchinho?” (2005), adaptação e texto de José Manuel Rodrigues, “Um por todos e todos por um” (2006), adaptação do clássico de Alexandre Dumas e encenação para fantoches de Paulo Cruz, “Era uma vez um dragão” (2008) de António Couto Viana, encenação e adaptação para fantoches de Paulo Cruz, “Galileu (1564-1642)” (2009) texto e encenação de José Manuel Rodrigues. Ao nível dos projetos de âmbito social, nomeadamente a prevenção para a toxicodependência, foram bastante significativas as parcerias com a Autarquia, o CAT de Santarém, IPDT, Associações de Pais das escolas do 3º ciclo e secundárias do concelho de Santarém, com as produções, “Pensa Nisto” (2002), criação colectiva do CDBS sobre a reciclagem dos lixos e a poupança da água e “Não Obrigado“(2004), adaptação e texto de José Manuel Rodrigues. Ainda em parceria com a Autarquia realizámos vários espetáculos alusivos à História de Santarém e de alguns dos seus monumentos, produções com a colaboração de vários elementos do Teatrinho e do Veto e com grande impacto ao nível do público em geral. Foram em 2003, “O Príncipe Constante“ de Calderón de la Barca, no Convento de S. Francisco, integrado no Congresso Internacional – Santarém e o Infante Santo 600 Anos e em 2007 no âmbito do projeto Olhar a História, “Conversas com História na Igreja da Graça” e “A Notícia da Carta de Pêro Vaz de Caminha”, guiões de José Manuel Rodrigues. Também como projeto de animação para a Biblioteca Municipal, realizámos em 2006, “Bernardo Santareno na Biblioteca Municipal de Santarém”, e em 2009, a propósito das comemorações do Centenário da República, “Braamcamp e Relvas na Biblioteca”, texto de José Manuel Rodrigues. Destaco ainda desta fase alargada da atividade do CDBS (1999-2009), três produções para público adulto, “A Confissão” (2006) uma encenação de José Manuel Rodrigues, com Paulo Cruz (Pedro Cassiano), Paula Nunes e Carla Reis, produção que traz de volta ao nosso reportório e aos palcos de Santarém a dramaturgia de Bernardo Santareno; “Gordura” (2006), uma aposta num original de um novo autor, Nuno Barbosa, encenação de Paulo Cruz com Carla Reis e Pedro Cassiano e “A Noite dos Assassinos” de José Triana, encenação de Gomes Vidal, com a representação magistral de Paula Nunes, Carla Reis e Ricardo Silva. Durante este largo período da atividade do CDBS fizeram parte do elenco: Paula Nunes, Paulo Patrício, Pedro Filipe, Carla Reis, Fernanda Narciso, Ricardo Silva, Clara d’Almeida, Pedro Cassiano, Rui Filipe, Paulo Cruz, José Manuel Rodrigues, Tiago Cruz, Sónia Ruivo, Dulce Grácio, Sónia Gomes, Maria João Martins, João Pedro Cunha, Ricardo Quaresma.
Trata-se sem dúvida de uma lista exaustiva de espetáculos e de nomes (que me parece ser de elementar justiça e reconhecimento), entre tantos outros que se realizaram ao longo destes anos, em animações, comemoração do Dia Mundial do Teatro e nosso aniversário, atividades do Dia da Poesia e de outros eventos, parcerias e colaborações, ações de formação, enfim, voltando um pouco atrás no texto, relembrar, que apesar de ter sido um período a viver em instalações provisórias, o dinamismo e o número de atividades realizadas foram um ponto de honra deste grupo e de todos os que pugnaram pela sua afirmação. Perderam-se pelo caminho materiais, adereços, figurinos e a direção sentiu graves dificuldades na organização administrativa, o que nem sempre ajudou no melhor funcionamento entre os corpos gerentes da associação. Na verdade relevaram-se prioridades na sustentabilidade financeira do elenco a tempo fixo ou parcial, por vezes socorrendo-se a empréstimos bancários pessoais, felizmente todos pagos, e na regularização anual da contabilidade (um agradecimento ao Sr. Carlos Godinho) junto das Finanças Públicas. Nunca houve grandes honorários, mas as contas estão saldadas. Houve necessidade de alterar os Corpos Gerentes eleitos, de acordo com os estatutos do CDBS, com a inclusão da Paula Nunes e do Paulo Arruda, nos corpos da Assembleia Geral (ata nº19 de 2000), dando-se continuidade ao mandato dos corpos gerentes em atividade por solicitação da Direção, face a um problema de ordem judicial a decorrer na altura, sobre o qual nos pareceu ser mais sensato esperar a resolução do Tribunal. Esta situação foi sentenciada em 2004 e justamente seja dito, que atualmente está resolvida por decisão judicial.
Voltando ao Teatro, apenas uma referência breve, mas da maior importância. Neste período já referido, realizavam-se uma média de 100 espetáculos por ano aos quais assistiam medias de 5000 espetadores anuais, sendo que mais de dois terços pertenciam ao público infantil em idade escolar, o que revela bem a importância do cumprimento do protocolo com a Autarquia, que implicava a realização de vinte e cinco espetáculos para as escolas primárias da cidade e do concelho (mais tarde este número foi reduzido face à realidade das condições da oferta e da procura), assim como à venda de pacotes de espetáculos para outras instituições e outros concelhos vizinhos. Este tempo de números bastante positivos, começou-se a ressentir negativamente a partir de 2005, com os resultados a baixar para cerca de metade. Justificações e opiniões serão sempre muitas, mas pessoalmente julgo poder afirmar que a entrada em funcionamento efetivo dos diversos Teatros Municipais recentemente renovados (por exemplo, o Teatro Municipal Sá da Bandeira tinha sido reinaugurado em março de 2004), planificando individualmente ou em rede a sua programação, incentivando e muito bem a produção local, elevando os níveis de exigência quanto aos espetáculos de fora, foram condições que, juntamente com alguns sinais da crise que se avizinhava, revelaram-nos uma “nova concorrência” para a qual ainda não tínhamos a resposta adequada. Se juntarmos as crescentes dificuldades na venda de espetáculos em geral, conjugadas com os sucessivos atrasos nos pagamentos dos protocolos, obrigou-nos à redução do elenco fixo a um mínimo exigível para a produção dos nossos espetáculos, procurando reduzir a todo o custo as despesas. Mesmo assim a situação não melhorou, com as consequências negativas inerentes para a vida pessoal dos intervenientes, pelo que, a direção e o elenco decidiram, entre 2009 e 2010, fazer uma pausa com a produção paga a tempo inteiro, até que todas as dívidas ao CDBS fossem saldadas e os honorários em falta pagos. Entretanto e para que a associação não entrasse em rutura total, ficou também decidido que os trabalhos a continuar seriam pagos ao espetáculo, pelos cachets ou venda de bilhetes auferidos, não havendo assim um vínculo formal entre o CDBS e os atores ou atrizes que se disponibilizassem para trabalhar. A crise também nos tinha batido à porta e só voltámos a produzir espetáculos, calmamente, a partir de 2011/12, nos moldes anteriormente definidos, aliás, como se mantêm ainda hoje, muito pela insistência (ou não desistência) de alguns elementos da direção, a Paula Nunes, José Manuel Rodrigues, Paula Lopes, Paulo Arruda, António Correia e de alguns amigos de sempre, José Gaspar, Paulo Cruz, entre outros, que asseguraram o funcionamento da associação. Seguramente, tínhamos a promessa por parte da autarquia de que todas as dívidas ao CDBS seriam saldadas, o que veio a acontecer, e mesmo com o fim das condições do protocolo existente, seria proposto outro posteriormente, sob a forma de uma candidatura anual a uma bolsa de apoios aos agentes culturais do concelho, PAAAC, a partir de 2013.
Contas saldadas com o elenco anterior e com outro empréstimo pessoal, podemos afirmar que se iniciou aqui um novo ciclo da vida do CDBS, que se mantém até hoje, já com uma programação anual regularizada, embora sem um elenco fixo a trabalhar a tempo inteiro, como sempre quisemos e desejámos. Foi-nos cedida uma sede no edifício do Associativismo, que não resolvendo todos os problemas logísticos, como já foi referido anteriormente, marca simbolicamente o fim da “casa às costas”. Quinze anos depois. Obrigado. Entretanto elegeram-se os novos corpos associativos (ata nº 25 de 2013), que têm a seguinte constituição: Mesa da Assembleia Geral, Paula Nunes Simões Miranda (Presidente), Ivanete Silva e João Pedro da Silva Veiga; Direção: José Manuel Rodrigues (Presidente), Paula Consolado Lopes e José Calado Gaspar; Conselho Fiscal: Paulo Jorge Arruda, André de Oliveira Salvador e André Simões Miranda. Esta direção mantém-se no seu segundo mandato até hoje.
Estes últimos cinco anos caracterizaram-se por uma aproximação bastante significativa de gente nova, que já por ter feito ou por quererem experimentar, procuram a atividade teatral. Com formação superior ou sem ela, procuram afirmar-se no panorama teatral da cidade, seja na participação em cargos gerentes seja nas artes do palco. As expetativas são muitas, embora nem sempre a realidade que se lhes oferece seja a mais apelativa. Para isto contribuem todos os projetos de formação, institucionais ou não, que hoje têm lugar na cidade. No caso do CDBS, tem tido grande visibilidade o CIT, Curso de Iniciação Teatral anual, a funcionar basicamente para jovens a partir dos 10 anos, um projeto com cinco anos dinamizado pela atriz do CDBS, Paula Nunes. Desde 2013 que de setembro a junho, cerca de quinze formandos trabalham uma vez por semana, durante duas horas, as técnicas de iniciação do teatro e da dança criativa, no Teatro Municipal Sá da Bandeira. No final de cada ano, apresentam no mesmo Teatro um espetáculo resultante do seu trabalho, com resultados que têm impressionado muito positivamente. “Toque de Feriado” (criação coletiva), “Cinco Almas Cinco Vidas” (criação coletiva), “Eu Não Sou Uma Coisa” (Gomes Vidal), “Gota de Mel” (Leon Chancerel) e “Lusitanos” (Carlos Oliveira) são exemplos dos espetáculos apresentados que revelam a criatividade e o empenho destes jovens. A música do João Madeira, um amigo com quem temos a honra de trabalhar há largos anos e as imagens de Rui Bernardino, dão o toque de classe a estas produções. Relativamente a produções para público infantil, optámos por um formato adaptado a espaços de menor dimensão, com públicos em menor número, auditórios, bibliotecas, espaços comerciais. Levámos à cena “Uma amiga preciosa” (2011 e 2016) com a Ivanete Silva e a Paula Nunes, posteriormente adaptada para teatro de bonecos com Paulo Patrício/Pedro Gouveia, “Star ou não Star” (2016), original de Paulo Patrício que fez parceria com a Paula Nunes e fizemos a reposição de “Galileu” (2014) com João Veiga e José Manuel Rodrigues. Ao nível de colaborações com outros agentes culturais, saliento as participações nos eventos de recriação histórica, “Cortes em Santarém”, promovidas pela Viver Santarém, as comemorações populares do 25 de Abril, diversos eventos culturais do Centro Cultural Regional de Santarém, “Palavras de Santareno” (2017), parceria com a Cena Aberta, na edição de Novembro mês de Santareno no Teatro Municipal Sá da Bandeira (2015), nas atividades culturais promovidas pelo INATEL (2017), entre outros. Quanto a produções para o público geral, realizaram-se os espetáculos “O Punho” (2016/17) de Bernardo Santareno e “Adeus Pessoa” (2018), adaptação de um texto de António Tabuchi. Estas produções trouxeram para o elenco um grupo de gente amiga de longa data e outros mais jovens, que incondicionalmente apoiaram desta forma a atividade do CDBS. O Punho contou com Paula Nunes, Berta Pereira, André Salvador, Carlos Oliveira, Pedro Gouveia, Helena Henriques, Pedro Pelarigo, Paulo Arruda, Sandra Oliveira, Beatriz Rosa, José Manuel Rodrigues e contámos também com os alunos de Teatro da Universidade Sénior do Cartaxo. A cenografia e a técnica estiveram a cargo de José Gaspar. Em “Adeus Pessoa”, uma produção a pensar objetivamente no público escolar do ensino secundário, a constituição do elenco refletiu bem esta renovação que pretendemos afirmar para um “novo” CDBS, com a entrada de novos atores, muito interessados em fazer Teatro. Assim recebemos a Maria Inês, o Afonso Brito, o Sandro Cordeiro, que se juntaram à Paula Nunes e ao André Salvador, sempre acompanhados pela excelente música de João Madeira. Estes espetáculos foram apoiados pela Autarquia no âmbito do PAAAC e pela Incubadora d’Artes de Santarém.
Hoje acreditamos que a atividade de vinte e oito anos tem pernas para andar muitos mais. Novas ideias apoiadas por quem está no terreno, renovação do elenco, aposta na criatividade, na inovação, na formação e na qualidade dos projetos, são seguramente a fórmula para continuarmos a fazer teatro com sucesso em Santarém. Pessoalmente continuo a acreditar que é possível trabalhar com uma estrutura paga a tempo inteiro pelo seu trabalho e espero que brevemente, estas gentes renovadas que se anunciam, venham a consegui-lo. Pelo menos, o pagamento à produção com a venda de espetáculos, é possível, assim se produza para isso. Este historial pecará com certeza pela enumeração de muitos nomes, listas datadas de atividades, talvez não muito apelativo a uma leitura mais apressada, mas entendi que era a oportunidade de fazer as justas referências e o reconhecimento merecido a quem trabalhou com o CDBS, a tempo inteiro ou a meio tempo, voluntariamente, muito ou pouco, por amizade ou por algum interesse. De uma maneira ou de outra, o objetivo cumpria-se sempre que o pano abria e a magia do teatro acontecia nas tábuas do palco, testemunhadas pelo público, que independentemente do seu número, sempre esteve presente, porque só assim tem sentido o Teatro. Muito faltará dizer, principalmente no que toca às emoções, às noites sem dormir, às ausências na família, aos medos e às dúvidas, às gargalhadas sonoras dos sucessos festejados entre amigos, aos excessos e à míngua deles, mas principalmente à capacidade imensa de nos reinventarmos todos os dias e vestir peles sem conta pelo prazer da representação. Pronto, já chega, até porque isto não vai acabar, nem com a reforma longínqua e o Chona quer este texto, ”sintético”, urgente, para a publicação de um livro sobre o Teatro em Santarém. Olha que bela ideia. Pois aqui estão alguns apontamentos. Obrigado a todos os que apoiam o Teatro, sabendo que o melhor apoio é estar presente nos espetáculos, com ou sem palmas no fim. Bem haja a todos os grupos de Teatro da cidade. Obrigado por existirem, pelo vosso trabalho, pela vossa amizade e apoio.
Perdão, mas quero deixar um adeus muito especial a quem já não está entre nós e em determinado momento da sua vida fez parte desta “família”: José Pedro, Manuel Martinho, António Correia, Lúcio Ferreira, Violeta Gomes, Alexandrina Batista, Rui Filipe, Paula Valadas, Simão Dias. Desculpem se me esqueci de alguém.