Para a História do Teatro de Amadores Pt. 11

2017

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Autor

António Gomes Marques

Cartaz de "O Aniversário do Banco", de Anton Tchekhov, pelo Grupo Mala de Teatro, 2016.

Cena do espectáculo «O Aniversário do Banco», de Anton Tchekhov, pelo Grupo Mala de Teatro, 2016.

Todos sabemos que o teatro vive do colectivo; no entanto, há sempre alguém que tem um papel determinante neste ou naquele projecto e, no Teatro de Amadores, talvez possa dizer-se que acontece com muito mais frequência. Vou falar de um desses casos, com a certeza de que há muitos outros, não sendo, com toda a certeza, a larga maioria do meu conhecimento.

Hoje vou falar de um «velho» companheiro na luta pelo teatro de amadores, sobretudo por ser um dos poucos que continua activo: Fernando Lobo.

A aventura do Fernando no Teatro de Amadores iniciou-se em Janeiro de 1973, no Grupo de Teatro do Calhariz de Benfica.

Após o 25 de Abril, entrou no turbilhão que a todos os democratas, interessados na instauração de um regime solidário, justo, com igualdade de oportunidades para todos, respeitador das diferenças, viria a atingir. Mas o «bicho» do teatro continuava bem vivo nele e, no Centro Social da Fábrica Cel-Cat, na Venda Nova-Amadora, funda com o contributo de dois outros amadores de teatro, o José Baião e o José Manuel Graça, o Grupo de Teatro Marabunta, apresentando-se ao público com a peça «Os Documentos Secretos da ITT», de José Diaz e Francisco Ruiz, traduzida pela Maria do Céu Guerra.

O Fernando não gostava do nome dado ao grupo e, «bebendo» nas leituras de Redondo Júnior – autor tão injustamente esquecido -, encontra uma nova designação que todos aceitaram: Praça Pública. Já com esta designação, o grupo estreia o clássico de Georg Büchner, «Woyzeck».

Em meados dos anos 80, do século passado, o Praça Pública é extinto, aceitando o Fernando o convite do José Gil para integrar o Teatro das Portas, participando já no espectáculo com a peça «Comédia Mosqueta», de Angelo Beolco, dito o Ruzante, integrando um outro projecto: «Escola de Espectador», projecto este dedicado a proporcionar aulas de teatro – História do Teatro Português e Universal, Voz, Expressão Corporal, Cenografia e Construção de Máscaras - e aulas de Dança, aproveitando as instalações de uma Associação do Bairro do Bosque, na Falagueira-Amadora, para o que houve o contributo de vários especialistas.

Também na citada década dos anos 80, o Fernando teve a ideia de uma semana teatral a que chamou Feira do Teatro, ideia que, com outros, vê concretizada, na qual participaram vários grupos de teatro de amadores, incluindo o Passagem de Nível, fundado em 1981 e ainda em actividade, o que muito se deverá ao dinâmico Porfírio Lopes, cuja colaboração para estas notas sobre a história do Teatro de Amadores espero conseguir.

Ainda em 1981, o Fernando foi um dos participantes no «Curso de Encenadores do Teatro de Amadores», organizado pela APTA – Associação Portuguesa do Teatro de Amadores, de 16 a 29 de Agosto de 1981, orientado pelo Konrad Zschiedrich, naquela data, encenador do Berliner Ensemble.

Mas a vida de um amador de teatro tem outras prioridades e foram naturalmente essas que levaram o Fernando a um afastamento por um longo período de 14/15 anos.

Reencontrei o Fernando Lobo no final do ano passado, na Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Queluz, respondendo ao convite que ele me fez para assistir a uma sua encenação de «O Aniversário do Banco», de Anton Tchekhov, o meu autor preferido, com o grupo de Teatro de Amadores de que agora é um dos dinamizadores, designado Grupo Mala de Teatro, que continua o trabalho de colaboração do Fernando com o Passagem de Nível, como testemunha o cartaz aqui reproduzido.

Mas a actividade do Fernando Lobo em prol da cultura não se fica pelo teatro e, neste, não se restringe à encenação. Ele é autor teatral e também poeta, com alguns livros publicados. Transcrevo um poema da sua lavra:

O MEU PRÉDIO

Eu não moro num país, moro num prédio
E tenho como vizinho um prédio ao lado
Ambos têm como parte comum um telhado
Onde cresce e apodrece o musgo de tédio

No meu prédio – todo construído de raiz –
Cada fracção não é fracção, é uma aldeia
Para que ninguém se imiscua na vida alheia
Logo o meu prédio não é um prédio
É o meu país

In Antologia dos Sentidos

Hoje, contrariando um pouco a minha ideia de teatro como trabalho colectivo, falei do Fernando Lobo como poderia falar de muitos outros, como o Deolindo Pessoa – hei-de voltar ao Centro de Iniciação Teatral Esther de Carvalho, de Montemor-o-Velho -, o Ercílio Natálio, de Ferreira do Zêzere, o Artur Oliveira, do Cartaxo, o Chona e o Domingos, de Santarém, ou do Marcelino de Sousa Lopes, de Chaves, do Júlio Cardoso – sim, do Júlio Cardoso - e do seu trabalho n´Os Modestos, do Porto, do Bento Martins, infelizmente já desaparecido, e do seu Grupo de Teatro de Carnide, do …, do …, mas ficarei hoje por aqui nesta ficha despretensiosa, mais uma, para a História do Teatro de Amadores, na esperança de poder ser útil a quem, um dia, se atrever a escrever a sua História.

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Descrição

"Para a História do Teatro de Amadores", é uma série de quinze textos da autoria de António Gomes Marques, ex-presidente da APTA — Associação Portuguesa de Teatro de Amadores, publicados inicialmente no blog A Viagem dos Argonautas (https://aviagemdosargonautas.net) entre 2016 e 2019, e aqui republicados.

Local

Portela (de Sacavém)

Data

16 de Janeiro de 2017

Tipologia

Ensaio

Proveniência

António Gomes Marques

Arquivo

Arquivo Pessoal de António Gomes Marques