Todos sabemos que o teatro vive do colectivo; no entanto, há sempre alguém que tem um papel determinante neste ou naquele projecto e, no Teatro de Amadores, talvez possa dizer-se que acontece com muito mais frequência. Vou falar de um desses casos, com a certeza de que há muitos outros, não sendo, com toda a certeza, a larga maioria do meu conhecimento.
Hoje vou falar de um «velho» companheiro na luta pelo teatro de amadores, sobretudo por ser um dos poucos que continua activo: Fernando Lobo.
A aventura do Fernando no Teatro de Amadores iniciou-se em Janeiro de 1973, no Grupo de Teatro do Calhariz de Benfica.
Após o 25 de Abril, entrou no turbilhão que a todos os democratas, interessados na instauração de um regime solidário, justo, com igualdade de oportunidades para todos, respeitador das diferenças, viria a atingir. Mas o «bicho» do teatro continuava bem vivo nele e, no Centro Social da Fábrica Cel-Cat, na Venda Nova-Amadora, funda com o contributo de dois outros amadores de teatro, o José Baião e o José Manuel Graça, o Grupo de Teatro Marabunta, apresentando-se ao público com a peça «Os Documentos Secretos da ITT», de José Diaz e Francisco Ruiz, traduzida pela Maria do Céu Guerra.
O Fernando não gostava do nome dado ao grupo e, «bebendo» nas leituras de Redondo Júnior – autor tão injustamente esquecido -, encontra uma nova designação que todos aceitaram: Praça Pública. Já com esta designação, o grupo estreia o clássico de Georg Büchner, «Woyzeck».
Em meados dos anos 80, do século passado, o Praça Pública é extinto, aceitando o Fernando o convite do José Gil para integrar o Teatro das Portas, participando já no espectáculo com a peça «Comédia Mosqueta», de Angelo Beolco, dito o Ruzante, integrando um outro projecto: «Escola de Espectador», projecto este dedicado a proporcionar aulas de teatro – História do Teatro Português e Universal, Voz, Expressão Corporal, Cenografia e Construção de Máscaras - e aulas de Dança, aproveitando as instalações de uma Associação do Bairro do Bosque, na Falagueira-Amadora, para o que houve o contributo de vários especialistas.
Também na citada década dos anos 80, o Fernando teve a ideia de uma semana teatral a que chamou Feira do Teatro, ideia que, com outros, vê concretizada, na qual participaram vários grupos de teatro de amadores, incluindo o Passagem de Nível, fundado em 1981 e ainda em actividade, o que muito se deverá ao dinâmico Porfírio Lopes, cuja colaboração para estas notas sobre a história do Teatro de Amadores espero conseguir.
Ainda em 1981, o Fernando foi um dos participantes no «Curso de Encenadores do Teatro de Amadores», organizado pela APTA – Associação Portuguesa do Teatro de Amadores, de 16 a 29 de Agosto de 1981, orientado pelo Konrad Zschiedrich, naquela data, encenador do Berliner Ensemble.
Mas a vida de um amador de teatro tem outras prioridades e foram naturalmente essas que levaram o Fernando a um afastamento por um longo período de 14/15 anos.
Reencontrei o Fernando Lobo no final do ano passado, na Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Queluz, respondendo ao convite que ele me fez para assistir a uma sua encenação de «O Aniversário do Banco», de Anton Tchekhov, o meu autor preferido, com o grupo de Teatro de Amadores de que agora é um dos dinamizadores, designado Grupo Mala de Teatro, que continua o trabalho de colaboração do Fernando com o Passagem de Nível, como testemunha o cartaz aqui reproduzido.
Mas a actividade do Fernando Lobo em prol da cultura não se fica pelo teatro e, neste, não se restringe à encenação. Ele é autor teatral e também poeta, com alguns livros publicados. Transcrevo um poema da sua lavra:
O MEU PRÉDIO
Eu não moro num país, moro num prédio
E tenho como vizinho um prédio ao lado
Ambos têm como parte comum um telhado
Onde cresce e apodrece o musgo de tédio
No meu prédio – todo construído de raiz –
Cada fracção não é fracção, é uma aldeia
Para que ninguém se imiscua na vida alheia
Logo o meu prédio não é um prédio
É o meu país
In Antologia dos Sentidos
Hoje, contrariando um pouco a minha ideia de teatro como trabalho colectivo, falei do Fernando Lobo como poderia falar de muitos outros, como o Deolindo Pessoa – hei-de voltar ao Centro de Iniciação Teatral Esther de Carvalho, de Montemor-o-Velho -, o Ercílio Natálio, de Ferreira do Zêzere, o Artur Oliveira, do Cartaxo, o Chona e o Domingos, de Santarém, ou do Marcelino de Sousa Lopes, de Chaves, do Júlio Cardoso – sim, do Júlio Cardoso - e do seu trabalho n´Os Modestos, do Porto, do Bento Martins, infelizmente já desaparecido, e do seu Grupo de Teatro de Carnide, do …, do …, mas ficarei hoje por aqui nesta ficha despretensiosa, mais uma, para a História do Teatro de Amadores, na esperança de poder ser útil a quem, um dia, se atrever a escrever a sua História.