Para a História do Teatro de Amadores Pt. 1 — 5

2016

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Autor

António Gomes Marques

Peças em Um Acto (A Guerra Santa, A Estátua) de Luís de Sttau Monteiro, Edições Teatro Minotauro, 1967.

Comunicado da Associação Portuguesa de Teatro de Amadores em resposta à Nota Oficiosa do Estado-Maior-General das Forças Armas, 1977.

Página Um, p.5, 14.07.1977.

Página Um, p.6, 14.07.1977.

Primeira Parte

Quando a idade já vai avançada, damos por nós, de vez em quando, a rememorar alguns factos vividos; uns serão factos relacionados com memórias de algumas intimidades que se viveram e, como tal, viverão e morrerão connosco se não formos capazes de contar tudo, outros serão factos públicos de que fomos parte integrante. É de um destes factos de que vos vou falar, também em memória de alguns dos intervenientes que já nos deixaram, mas que não esquecemos.

Em 1977, a Comissão Executiva da Feira Nacional da Agricultura de Santarém pretendeu programar uma série de espectáculos de teatro a integrar no evento e, para isso, entrou em contacto com a ARSTA – Associação Regional de Santarém do Teatro de Amadores, a qual, naturalmente, entrou em contacto com a associação nacional, APTA – Associação Portuguesa do Teatro de Amadores, de cuja Direcção era eu o Presidente. Esta deu início ao processo de imediato, seleccionando oito Grupos de Teatro de Amadores. Entre estes estava o Teatro Experimental Torrejano, de Torres Novas, que apresentou na Feira Nacional da Agricultura a peça «A Guerra Santa», de Luís de Sttau Monteiro.

Para esta série de espectáculos, havíamos alertado o crítico e realizador Fernando Midões, responsável então por um programa na RTP, Fila T, dedicado à actividade teatral, que ficou, naturalmente, interessado na divulgação naquele seu programa dos espectáculos que iriam decorrer em Santarém.

Até aqui, tudo a decorrer com a normalidade natural e nenhum de nós, amadores de teatro, nem sequer o Fernando Midões ou o Luís de Sttau Monteiro, pensámos na turbulência que se seguiria à apresentação de excertos deste espectáculo, excertos esses que deram origem a um comunicado, de um conteúdo que nos fez recuar aos piores momentos do regime fascista de Salazar, do Estado-Maior-General das Forças Armadas, o qual levou à suspensão do programa Fila T e do Fernando Midões, tendo este que enfrentar ainda um processo levantado pela Administração da RTP. O facto de o Fernando Midões ter apresentado apenas excertos do espectáculo foi considerado motivo agravante para os Generais, o que foi uma conclusão profundamente estúpida, ao nível das conclusões dos Coronéis da censura salazarista, bastando, para esta minha conclusão, conhecer a razão por que o Fernando Midões não pôde reproduzir todo o espectáculo. Os documentos que a seguir se reproduzem ─comunicado conjunto da APTA e da ARSTA e a reprodução das páginas 5 e 6 da edição do dia 14 de Julho de 1977, do jornal «página um», no texto “Atenção: começou a «guerra mundial»”, que inclui declarações do autor da peça ─ são a prova cabal do que acabo de escrever. Reproduzimos também a capa da 1.ª edição das peças em um acto de Luís de Sttau Monteiro, «A Guerra Santa» e «A Estátua», da autoria de João Vieira.

À Barca, Boletim da Associação Portuguesa de Teatro de Amadores, nº18, 18.05.1985.

Segunda Parte

Dos muitos grupos de teatro de amadores, criados antes e depois do 25 de Abril, membros da APTA – Associação Portuguesa do Teatro de Amadores, hoje sem actividade, um há que sempre se distinguiu e que hoje continua a desenvolver uma notável obra cultural: é o CITEC – Centro de Iniciação Teatral Ester de Carvalho, de Montemor-o-Velho, de que divulgamos um documento publicado no n.º 18, de Maio de 1985, do À BARCA, órgão informativo da APTA.

TEATRO DE FANTOCHES
ESCOLA VELHA – ESCOLA NOVA

Criação Colectiva do CCR – Centro de Cultura e Recreio de Ferreira do Zêzere
Personagens: Professora, Director-Geral, Miúdo 1, Miúdo 2, Miúdo 3, Miúdo 4, Avô

Para crianças ainda não muito crescidas, o que é dito conta pouco, contam sim o movimento e a cor. Assim, parece-nos necessário manter um diálogo constante entre os bonecos e as crianças, pedir-lhes sugestões, obrigá-las a dar opiniões, soluções enfim, introduzi-las cada instante dentro da história, caso contrário, as crianças perdem-se e a certa altura… já não estão lá (em espírito, claro).


(No recreio. Cenário: a escola velha. As crianças brincam, fazem uma roda e cantam).
(Chega a Professora. Bate as palmas).
PROFESSORA – Vamos, meninos! Já passaram os dez minutos de recreio, vamos trabalhar.
MIÚDO 1 – Oh, Sr.ª Professora, mas parece que mesmo agora viemos para o recreio!
MIÚDO 2 – Oh, Sr.ª Professora, não me apetece ir já lá para dentro! Está tão escuro, as janelas são tão pequeninas!
MIÚDO 3 – E os buracos que lá há? E as correntes de ar que passam pelas janelas partidas?!
MIÚDO 4 – Oh, Sr.ª Professora, não podemos ficar cá fora só mais um bocadinho? O Sol está tão bonito! Dentro da escola só há cadeiras partidas! Nem uma flor, nem uma coisa bonita!
PROFESSORA – Bem sei! Bem sei! Sei isso tão bem como vocês! Concordo que cá fora está mais agradável e, enquanto estiver bom tempo, até podemos trabalhar cá fora, melhor ainda do que dentro da escola!
MIÚDOS – Viva! Viva! Viva!
PROFESSORA – Calma! Calma! Não se esqueçam que quando chegar o Inverno não podemos estar aqui fora à chuva e ao frio!
MIÚDO 1 – Pois não, lá isso não podemos!
MIÚDO 2 – Mas com os buracos que há no tecto, lá dentro apanhamos chuva na mesma!
MIÚDO 3 – E frio!
PROFESSORA – Escutem lá, tenho uma ideia! Se nós convidássemos o Director-Geral a vir cá fazer uma visita à escola, ele via o estado em que ela se encontra e talvez nos desse uma escola boa onde pudéssemos trabalhar confortavelmente!
MIÚDO 4 – Era uma boa ideia, era! Podíamos experimentar!
PROFESSORA - Estão todos de acordo?
TODOS – Estamos sim, Sr.ª Professora.
PROFESSORA – Então esperem aí que eu vou telefonar-lhe.
(Os miúdos ficam em cena a dançar e a cantar. A Professora sai.)
MIÚDOS – Vem aí o Director-Geral! Vem aí o Director-Geral!
(Chega a Professora)
PROFESSORA – Meninos, o Sr. Director-Geral diz que vem já, o mais depressa possível. Agora, ponham-se em fila e ouçam-me com atenção. Quando o Sr. Director-Geral chegar, batam palmas, e quando eu fizer sinal vocês gritam: “Viva o Sr. Director-Geral”. Perceberam? Digam lá vocês para eu ver se entenderam.
MIÚDOS – Viva o Sr. Director-Geral!
PROFESSORA – Muito bem. Agora portem-se bem.
(Chega o Director – Geral)
DIRECTOR-GERAL – Ora, muito bom-dia. Mas que lindos meninos. E têm ar de inteligentes. Felicito-a, Sr.ª Professora, pelos seus alunos.
PROFESSORA – Muito obrigada, Sr. Director-Geral. Quero antes de mais nada transmitir-lhe os nossos agradecimentos por ter vindo visitar-nos, e dizer-lhe que nos sentimos muito honrados pela sua presença.
DIRECTOR-GERAL – Mas a honra é toda minha. Vir até ao povo. Ouvir os seus anseios. Tomar contacto com as suas necessidades, é para mim uma experiência riquíssima.
PROFESSORA – Sr. Director-Geral, nós até nos lembrámos que talvez o Sr. Director-Geral nos pudesse ajudar a arranjar uma escola nova pois esta já está muito arruinada e não conseguimos trabalhar lá dentro.
DIRECTOR-GERAL – Ah! A vossa linda escola? Onde se formam os futuros obreiros do Portugal de amanhã?
MIÚDO 1 – O Sr. Director-Geral diz isso porque ainda não lhe caiu chuva em cima por causa dos buracos que há no tecto.
PROFESSORA – Psiu!
DIRECTOR-GERAL – (engasgado) – Ahn. Ahn. Mas, por favor, deixe-os falar à vontade, exprimir o que lhes vai na alma.
MIÚDO 2 – Não é na alma, Sr. Director-Geral, é ali dentro da escola.
DIRECTOR-GERAL – (entusiasmado) – Isso! Isso! Contactar com as massas é a minha missão! Estou aqui para escutá-los! E vejo agora que a vossa escola está um… pouco… necessitada… mas, não se preocupem, pois a reconstrução das escolas está integrada no grande projecto de reurbanização nacional! Por isso não se preocupem! Não se preocupem! De qualquer forma eu prometo-lhes que o vosso caso será resolvido com a máxima urgência! Ou não seja eu o Director-Geral! O bom povo desta terra merece-o e merece-me. Tenho dito!
PROFESSORA – Viva o Sr. Director-Geral!
MIÚDOS – Viva! Viva! Viva!
(Passado algum tempo. Descem os fantoches. Na escola velha)
PROFESSORA – Meninos, preciso de lhes falar. Já passaram uns poucos de meses e nunca mais temos a escola nova que nos prometeram!
MIÚDO 1 – Sim, lá promessas temos nós!
MIÚDO 2 – E o pior é que já começou o Inverno!
MIÚDO 3 – O meu pai ontem até disse que o melhor era a gente não fazer conta com as promessas que nos fizeram!
PROFESSORA – Mas então o que é que vamos fazer?
MIÚDO 4 – Oh, Sr.ª Professora, porque é que não fazemos nós a escola? O meu avô disse que está pronto a ajudar o que for preciso!
PROFESSORA – É uma boa ideia! Construímos nós a escola, pois!
MIÚDO 1 – Viva! O meu pai também vai ajudar, tenho a certeza!
MIÚDO 2 – E o meu!
MIÚDO 3 – E o meu também!
PROFESSORA – Então, mãos à obra antes que comece a ser tarde!
MIÚDO 1 – O meu pai já disse que dava as telhas.
MIÚDO 2 – E o meu pai dá as madeiras.
MIÚDO 3 – O meu pai dá as tintas!
MIÚDO 4 – O meu avô ajuda a acarretar os materiais! Eu vou chamá-lo. (chama-o mesmo da cena) Avô! Ó avô!
AVÔ – O que é que queres, Joãozinho? Olá, Sr.ª Professora, como está?
PROFESSORA – Vai-se indo, Sr. João! Seja bem-vindo!
MIÚDO 4 – Avô, vamos reconstruir a escola. Tu ajudas?
AVÔ – Ajudo, pois! Tudo o que for preciso, pois esta escola está uma miséria!
MIÚDO 1 – Então, vamos buscar os tijolos!
MIÚDO 2 – Eu vou buscar as madeiras.
MIÚDO 3 - Eu também ajudo a acarretar os tijolos.
MIÚDO 4 – E eu as madeiras!
PROFESSORA – E eu, o que é que eu faço?
MIÚDO 2 – Oh, Professora, ajude aqui a segurar neste barrote! Ih pá, o pau é pesado!
PROFESSORA – (ajudando-o) – É pesado, é! Ui! Como pesa!
MIÚDO 3 – Ainda faltam muitos tijolos?
MIÚDO 1 – Olha, mesmo agora começámos!
AVÔ – Mas sempre vai ficar uma escola bem bonita!
(Aqui, na cena de construção, pode e deve improvisar-se. Entretanto, a pouco e pouco, os próprios bonecos vão subindo o cenário da Escola Nova)
PROFESSORA – Posso começar a pintar?
AVÔ – Pode, pode, Professora! Nós já a ajudamos!
MIÚDO 4 – Esta tinta é gira, não é?
MIÚDO 1 – Afinal, não custou nada a reconstruir a escola!
MIÚDO 2 – Nada! Nada! Parecia uma brincadeira!
PROFESSORA – E ficaram a saber que um tijolo mais um tijolo…
MIÚDOS - São dois tijolos
PROFESSORA – E dois tijolos mais dois tijolos…
MIÚDOS – São quatro tijolos!
AVÔ – Até eu, que não sabia ler nem escrever, fiquei a saber contar! Obrigado a todos! Até logo! (sai)
TODOS – Até logo! Até logo!
MIÚDO 1 – Ó Professora. E ainda ficámos a saber mais uma coisa!
PROFESSORA – O que foi?
MIÚDO 1 – Que os Srs. Directores-Gerais e etcetras precisam de ir para a escola pois não sabem geografia, senão não se esqueciam de fazer escolas novas em aldeias como a nossa!
(cantam todos)
TODOS – Viva a Escola Nova! Viva a Escola Nova!
(enquanto eles dançam, a Professora sai. Quando volta, diz:)
PROFESSORA – Meninos, tenho uma coisa a dizer-lhes. Chegou agora um telegrama a avisar que o Sr. Director-Geral nos vem hoje fazer uma visita.
MIÚDO 1 – Ora esta, o que é que ele quererá?
MIÚDO 2 – Se calhar vem cá ver se a escola já caiu.
MIÚDO 3 – Bem podíamos esperar pela escola dele!
MIÚDO 4 – Ó Professora, a que horas é que ele vem?
PROFESSORA – Deve estar quase a chegar!
DIRECTOR-GERAL – (chega distribuindo sorrisos a torto e a direito) – Bom-dia! Bom-dia!
TODOS – Bom-dia!
DIRECTOR-GERAL – (vê a escola e fica surpreendido) – Mas… Mas… ! Mas que linda escola que vocês têm! Pelos vistos os vossos anseios foram ouvidos, não é verdade?
PROFESSORA – Creio que não, Sr. Director-Geral; não foram ouvidos.
DIRECTOR-GERAL – Não posso acreditar! Os meus olhos dizem-me que o vosso pedido respeitante à escola foi aceite!
MIÚDO 1 – A gente não sabe se o pedido foi aceite, Sr. Director-Geral! Sabemos é que a escola não veio!
DIRECTOR-GERAL – Mas… Mas… ! Mas eu vejo aqui uma esplêndida escola precisamente no local em que estava aquela escola arruinada que eu vi!
MIÚDO 2 – Pois vê! Mas fomos nós que a fizemos!
DIRECTOR-GERAL – Não posso acreditar!
MIÚDO 3 – Pois acredite! E o Sr. sabe isso muito melhor que nós! Sabe perfeitamente que não recebemos nenhuma ajuda lá do SEU grande projecto de reurbanização nacional.
DIRECTOR-GERAL – Não é meu! Não é meu! É do respectivo departamento geral de reorganização nacional! Mas têm que compreender! O Governo está a atravessar uma grande crise! Temos pouco dinheiro, meus filhos!
Mas, Sr.ª Professora, como conseguiram o dinheiro para mandar fazer a escola?
PROFESSORA – Já lhe dissemos, Sr. Director-Geral, que não a mandámos construir; construímo-la nós!
DIRECTOR-GERAL – Ai… Ai… ! Ai, isto é o fim! Mas… nós? Quem nós? Quê nós? Quem é nós? Quem é quem? Nós é quem?
MIÚDO 1 – Nós é eu!
MIÚDO 2 – Mais eu!
MIÚDO 3 – Mais eu!
MIÚDO 4 – Mais eu!
MIÚDO 1 – Um menino, mais um menino, mais um menino, mais um menino, mais um avô, mais uma professora…
MIÚDO 2 – Isto dá 6 pessoas.
MIÚDO 3 – Com as outras ajudas dá quase a aldeia inteira!
DIRECTOR-GERAL – Ó Sr.ª Professora! Mas onde é que as crianças tiveram aulas durante este tempo todo?
PROFESSORA – Olhe, Sr. Director-Geral, tivemos aulas entre um tijolo e uma lata de tinta; entre uma ripa de madeira e um martelo; entre pregar um prego e carregar um saco de cimento.
DIRECTOR-GERAL – Mas isto é incrível! A Sr.ª Professora vai ser castigada! O Estado paga-lhe para ensinar e não para construir escolas.
PROFESSORA – O Estado paga-me para ensinar e não para fazer papagaios, que é o que o Sr. quer que eu faça destas crianças! Ensinar foi o que eu fiz. Ensinei que na escola tem que se aprender o valor do trabalho manual, e que o trabalho de um operário é tão importante como o de um advogado ou de um professor.
MIÚDO 4 – E mais importante que o de um Director-Geral!
DIRECTOR-GERAL – Silêncio! Pois fiquem sabendo que esta professora vai ser afastada desta escola. Não é para isto que ela cá está! Aposto que nem sabem quem foi o 1.º rei de Portugal!
MIÚDO 1 – (troça) – Sabemos pois, foi…
MIÚDO 2 - … o…
MIÚDO 3 - … Napoleão!
MIÚDOS – (riem-se todos)
DIRECTOR-GERAL – Isto é demais! Isto é demais! No próximo mês, esta professora vai ser substituída e vocês vão ter uma nova professora! Tenho dito!
PROFESSORA – Tem dito?
DIRECTOR-GERAL – Tenho dito!
MIÚDO 1 – (para os outros) – Tem dito!!
MIÚDO 2 - Fique sabendo, Sr. Director-Geral, que a professora fica enquanto ela quiser e enquanto nós quisermos.
MIÚDO 3 – Isso mesmo! Uma escola nova também é isto; também é sabermos quem e o que queremos.
MIÚDO 4 – Somos crianças, mas não precisamos de Directores-Gerais que pensem e decidem por nós!
PROFESSORA – Aí tem, Sr. Director-Geral. Até foi bom não nos ter dado a escola, assim nós percebemos melhor que nenhum projecto de reurbanização nacional nos pode dar a escola nova! A Escola Nova não está nas paredes! Está em nós!
DIRECTOR-GERAL – Mas… Mas…!
TODOS – É isso mesmo!
Escola Nova, Ideias Novas!
NARRADOR – e aqui têm como estes amiguinhos tiveram a escola Nova ainda antes de reconstruir a escola. A escola nova é afinal saber aproveitar todas as situações para se aprender novas coisas. Acarretar tijolos, acarretar paus ou pintar paredes, tudo isto deve fazer parte da Escola Nova que todos vamos construir, mesmo contra todos os Directores-Gerais que possam aparecer.

FIM

Terceira Parte

O título destas crónicas pode levar o leitor a pensar que o seu autor tem em preparação uma História do Teatro de Amadores em Portugal, o que não corresponde à verdade, embora essa ambição seja algo que gostaria de considerar.

Uma História do Teatro de Amadores implica uma disponibilidade de meios de que, confesso, não disponho. Essa História, absolutamente necessária, não exige apenas tempo, mas sobretudo obriga a uma disponibilidade de deslocação por todo o país, a milhares de entrevistas com antigos e actuais membros do teatro de amadores e a reunir uma quantidade incomensurável de documentação que me leva a pensar que se trata de um empreendimento que não pode deixar de envolver uma equipa completamente empenhada em tal objectivo. Depois, não sei se o mais importante mas, seguramente, o que poderá tornar possível a sua concretização, é o seu financiamento.

Assim, vamos deixando nestas crónicas alguns elementos, sem cuidar de os apresentar cronologicamente, que poderão servir, amanhã, a quem se sentir com condições para levar a bom porto tal empreendimento.
Feita esta introdução, passemos agora a uma vertente, pouco falada mas muito apreciada, e a que alguns dos grupos de teatro de amadores muito se dedicaram: o teatro de fantoches.

Um desses grupos foi o CCR – Centro de Cultura e Recreio de Ferreira do Zêzere, aproveitando para aqui reproduzir uma das suas criações colectivas, «Escola Velha – Escola Nova», publicada como suplemento do À BARCA, Boletim da APTA – Associação Portuguesa do Teatro de Amadores.


Quarta Parte

Encontrar uma data fundadora do teatro de amadores não me parece possível; encontrar uma data da fundação de uma organização dos grupos de teatro de amadores já será outra história.
Grupos de teatro de amadores tiveram o seu início há séculos, uns com muito tempo de existência e outros menos; alguns criados apenas para uma comemoração, outros criados com intenção de continuidade numa qualquer associação existente, normalmente propostos por algum apaixonado pelo teatro e que logo teve adesão de mais uns tantos; outros foram criados nas secções culturais de grandes empresas; enfim, muitos terão sido os motivos e, como se diz no À BARCA n.º 5, de Dezembro de 1975, «Nada do que acontece parte dum ponto fixo no espaço e no tempo, …», servindo-nos deste número do boletim da APTA para dar a conhecer um pouco da História do Teatro de Amadores em Portugal.

A memória de alguns dos membros da primeira Direcção da APTA já legalizada, presidida por Viriato Camilo, situou a tentativa de criação de uma associação de amadores de teatro em 1954; depois, lembraram-se de que, em 1967, tiveram conhecimento de um Festival Internacional do Teatro de Amadores, em Hamburgo, e, em simultâneo, da existência da AITA/IATA – Association Internationale de Théâtre d’Amateurs / lnternational Amateur Theatre Association, com sede na Holanda, conhecimento este que estimulou alguns amadores de teatro portugueses a constituírem uma Associação Portuguesa do Teatro de Amadores, o que viria ao encontro da necessidade dos muitos grupos de teatro de amadores que se vinham formando no nosso país.

Alguns destes grupos estavam associados na Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto (fundada em 1924), outros eram independentes, mas muitos deles mostraram-se dispostos a aderir a uma tal associação, mesmo muitos dos que estavam já inseridos naquela referida Confederação, o que deu origem a várias reuniões que levaram à elaboração de uns estatutos para o que viria a ser a APTA – Associação Portuguesa do Teatro de Amadores, concluindo-se este trabalho em 1969, logo remetidos ao Ministério de Educação Nacional para aprovação. Escreve-se naquele Boletim: «Em vão se esperou pela decisão ministerial, que só veio imediatamente após o 25 de Abril de 1974 (!) quando esses estatutos já não correspondiam às novas realidades da sociedade portuguesa.»

Durante todo aquele tempo de espera, a APTA foi funcionando clandestinamente, mantendo-se em contacto com os grupos de teatro de amadores que haviam aderido, enviando-lhes folhas informativas de vários assuntos relevantes para o movimento, apoiando-se nos meios de que dispunha um dos grupos – Grupo de Teatro do Grupo Desportivo do Pessoal da Companhia Nacional de Navegação.

Outra realização importante da clandestina APTA consistiu num curso de preparação técnica para amadores de teatro, dirigido pelo Encenador e Actor Fernando Gusmão, sem qualquer remuneração, note-se, curso esse realizado nas instalações da Academia dos Amadores de Música.

Entretanto, novos grupos de teatro de amadores foram sendo criados, de Norte a Sul do país, estando eu próprio envolvido na criação de um deles, Os Hipopótamos – Grupo de Teatro dos Serviços Sociais dos Trabalhadores da Caixa Geral de Depósitos, a que penso dedicar uma destas crónicas numa das próximas semanas.

Em 21 de Março de 1974, realizou-se um encontro de representantes de grupos de amadores de teatro, que apelidámos de semiclandestino, na sede do Campolide Atlético Clube, onde claramente se concluiu que a força em crescendo dos grupos de teatro de amadores justificava que se intensificasse a luta pela legalização da APTA, encontro este em que participei, a convite do Viriato Camilo e do Joaquim Benite – era naquele clube que o Grupo de Teatro de Campolide desenvolvia a sua actividade e estreava os seus espectáculos-, dado que eu, no momento, por razões políticas e que um dia talvez refira, me tinha afastado de «Os Hipopótamos», assim como o seu Director, o Escritor, Dramaturgo, Encenador e Actor Costa Ferreira, e, em tal situação, não poderia representar o Grupo naquela reunião. Logo após o 25 de Abril, eu e Costa Ferreira regressámos a «Os Hipopótamos».

Após o 25 de Abril, a Direcção Provisória da APTA realizou a sua primeira reunião geral no Palácio Foz, graças ao apoio das competentes entidades governativas, aprovando os novos estatutos, logo recebendo a necessária autorização do Ministério da Comunicação Social.

O claro apoio dos grupos de teatro de amadores de todo o país à sua nova Associação, levou a Direcção-Geral da Cultura Popular e Espectáculos a convidar a APTA a integrar a recém-criada Comissão Consultiva para as Actividades Teatrais, como legítima representante do teatro de amadores, concedendo-lhe também um subsídio que foi fundamental para o arranque da sua agora legítima actividade.

À Barca, Boletim da Associação Portuguesa de Teatro de Amadores, nº5, Dezembro 1975.

Quinta Parte

Eleita a primeira Direcção legal da APTA, só possível no após 25 de Abril, o que nunca poderemos esquecer, há que referir agora a forma como esta deu resposta a algumas das preocupações dos grupos de teatro de amadores.

Vejamos algumas das medidas concretizadas, com base nas informações contidas no boletim À BARCA citado no texto anterior desta série:

- Apoio a 78 grupos associados com material cénico e/ou com dinheiro, só possível com os subsídios concedidos pelo novo poder político. Estes 78 associados puderam, assim, realizar 1057 espectáculos, com cerca de 325.733 espectadores;

- Apoio aos Festivais de teatro de Santarém, Montemor-o-Velho e Évora;

- Apoio aos Cursos de Iniciação Teatral de Montemor-o-Velho e Rebelva;

- Apoio aos Grupos associados que integraram as Campanhas de Dinamização Cultural, dinamizadas pelo MFA, em várias regiões do país;

- Apoio aos Encontros de Setúbal e de Viseu, promotores da criação de Associações Regionais ligadas à APTA;

- Criação do Dia de Teatro de Amadores, fixado para 21 de Março, ficando a ser Portugal o único país a ter um dia de comemoração para os Amadores de Teatro. Lembremos que já estava instituído o Dia Mundial de Teatro, ainda hoje acontecendo a 27 de Março, no seguimento do que a AITA/IATA – Associação Internacional do Teatro de Amadores, tinha instituído, ou seja, promovendo a comemoração do teatro de amadores durante o período de um mês, mas com início no Dia Mundial de Teatro, organizando Festivais de Teatro de Amadores durante esse tempo em países diferentes;

- Edição de um Boletim, o À BARCA, onde se deu prioridade à divulgação de textos teóricos de teatro, elementos de formação técnica e teórica;

- Deu-se início à constituição de uma Biblioteca especializada;

- Enviaram-se textos de peças policopiados aos associados que os solicitaram;

- Colaboração com o INATEL e Direcção do Mercado do Povo em espectáculos com grupos de teatro de amadores, numa organização daquelas duas entidades;

- Colaboração com a RTP, área de serviço de teatro, no inquérito elaborado a propósito da encenação da peça «A Excepção e a Regra», de Bertolt Brecht;

- Apoio a dois membros do VETO – Teatro Oficina, de Santarém, para frequentarem o TIP – 75, Teatro Internacional para Jovens, uma organização da AITA/IATA, que reunia jovens de vários países integrados em associações filiadas naquela associação internacional, onde se realizavam várias oficinas versando as mais variadas actividades relacionadas com o teatro, e dirigidas por professores ligados/contratados à AITA/IATA. O TIP – 75 foi realizado na Irlanda, num convento de freiras, a cerca de 50 km de Dublin, com representantes de 10 países, tendo cinco professores e 59 alunos. Os alunos foram provisoriamente agrupados, dando-lhes a oportunidade de, num sistema rotativo, passarem pelas aulas de todos os cinco professores, para assim poderem escolher aquele em que ficariam a título definitivo. Os dois portugueses escolheram as aulas de Willem Jan Raymakers, de 27 anos - um pouco mais velho do que alguns alunos, dado que estes tinham idades compreendidas entre os 18 e os 26 anos -, professor de Sociologia, na Academia de Kopse Hof, na Holanda.

- Em 1978, sendo eu, na altura, o Presidente da Direcção da APTA, realizou-se um TIP em Portugal, entre 30 de Julho e 17 de Agosto, na cidade de Santarém.


Com tão notável acção, a primeira Direcção legal da APTA deu um notável contributo para difundir e cimentar a acção dos grupos de teatro de amadores e da sua Associação em todo o país.

Pouco tempo depois da sua legalização, o número de associados na APTA já se aproximava dos 150, com pedidos de inscrição a chegarem à sua sede a um ritmo quase diário. Poucos anos depois, o seu número atingia as várias centenas.

Ver mais Informações

Descrição

"Para a História do Teatro de Amadores", é uma série de quinze textos da autoria de António Gomes Marques, ex-presidente da APTA — Associação Portuguesa de Teatro de Amadores, publicados inicialmente no blog A Viagem dos Argonautas (https://aviagemdosargonautas.net) entre 2016 e 2019, e aqui republicados.

Local

Portela (de Sacavém)

Data

Abril de 2016

Tipologia

Ensaio

Arquivo

Arquivo Pessoal de António Gomes Marques