Veto Teatro Oficina - 50 anos a levar emoções do palco para o mundo

2019

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Autor

Nuno Domingos

"Em 1969, a secção de teatro do Círculo Cultural Scalabitano, já com uma produção diminuta, cessou a sua actividade apesar dos esforços do professor do Liceu Sá da Bandeira, Dr. Nestor de Sousa, que tinha sido um excelente actor no Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC) e aluno do Dr. Paulo Quintela.

Até que em Outubro do mesmo ano, José António Narciso Ramos, José António de Oliveira Beja, Nuno Netto de Almeida, António Júlio Rodrigues dos Santos, ex-alunos do Professor Carlos de Sousa, e Carlos Alberto da Silva Oliveira, deram força a um projecto, denominado secção de teatro infantil do Círculo Cultural Scalabitano, começando por representar teatro para crianças, aos domingos de manhã. Espectáculos com entradas gratuitas, no Teatro Taborda, a que se seguiam representações em itinerância. É nesta altura que surgem, no Círculo Cultural Scalabitano, pela segunda vez os palhaços, interpretados agora por António Júlio e Carlos Oliveira, o Pantufa e o Farófias.

Até Maio de 1972, viveu-se um período de grande entusiasmo, sendo montadas 12 peças de teatro para crianças, apesar das muitas dificuldades e da total falta de apoios. Entretanto surgiu a ideia de se montarem espectáculos para adultos, iniciativa que contrariava a ideia original do projecto, instalando-se algum mal-estar no grupo.

Contudo, a nova ideia prevaleceu e a 5 de Julho de 1972, já com o nome de Veto - Teatro Oficina, surgido da iniciativa de Carlos Oliveira e Gomes Vidal, estreou-se um espectáculo de grande ousadia política, dirigido e representado por estes dois elementos e por Maria João, Hélder João Santos, José Ramos, Nuno Domingos e António Batalha.

Desses tempos, chegam até hoje o António Júlio, do grupo inicial de 1969 e eu próprio, da leva de 1972.

Este primeiro espetáculo para o público adulto teria grande importância, porque reunindo vários momentos teatrais, definia a filosofia com que o grupo se passaria a apresentar a partir daí, procurando construir pontes estéticas e comunicacionais entre um teatro mais vanguardista, inacessível a um público, o nosso, que não tinha forma de o compreender e muitas vezes, nem nós, e neste contexto apresentámos o "Passadismo" do futurista italiano Emílio Settemelli, e um teatro mais conservador que já não nos motivava, nem estimulava, tendo a neste aspeto apresentado "Os Malefícios do Tabaco" de Anton Chekhov.
A ponte seria a encenação repartida entre Carlos Oliveira e Gomes Vidal de "O Doido e a Morte", de Raul Brandão. Até hoje procurámos manter uma estética centrada na preocupação com a manutenção desta ponte, sendo certo que algumas vezes teremos estado mais perto de um lado e outras do outro.
É também deste tempo, a assunção do nome Veto, em que partindo de uma conhecida história passada no teatro russo, em que Constantin Stanislavski e Vladímir Nemiróvitch- Dântchenko se reconheciam respectivamente direito de Veto em encenação e na preparação dos actores, na companhia que ambos dirigiam.

Nós, no Veto, o que pretendíamos era ter direito de Veto em relação à situação politica que então se vivia e a história serviu-nos às mil maravilhas.

Mais tarde, através dos então capitães Correia Bernardo e Salgueiro Maia, viríamos a ter conhecimento do processo instaurado pela PIDE e das graves consequências que nos atingiriam, se não tivesse acontecido a alvorada de Abril de 1974.

Com o vinte cinco de Abril e a criação da APTA – Associação Portuguesa de Teatro de Amadores, de que o Veto seria um dos grupos fundadores, surgiu uma época de grande trabalho e empenhamento cultural.

Finalmente, começámos a representar em liberdade e, desde então, nestes cinquenta anos, assistiu-se ao mais intenso período de produção teatral, desde que esta arte teve início no Teatro Taborda.

Só em 1975, o grupo realiza, integrado nas Campanhas de Dinamização do MFA, um pouco por todo o país, 62 espectáculos, número que, depois disso, em alguns anos seria amplamente superado.

A realização de programas anuais de televisão, (TV Palco, História dos teatros, entre outros) foi garantindo a divulgação anual do nosso trabalho, e os convites para deslocações foram aparecendo um pouco de todo o lado.

No campo da formação, na Páscoa de 1975, participámos no primeiro curso organizado pelo então recém-formado Centro Dramático de Évora, tendo beneficiado do conhecimento do Prof. Luís Varela, Mário Barradas, José Peixoto, entre outros, mas também na componente técnica, nomeadamente luz e som, disponibilizada pelo João Carlos Marques, “O Tarzan”.

Ainda nesse Verão, dois elementos do grupo participaram num curso Internacional de Teatro na Irlanda (TIP – Theatre International for Young People), promovido pela AITA – IATA (Associação Internacional de Teatro de Amadores), de que era APTA era filiada, e nos anos seguintes, nesse mesmo curso, na Finlândia, Hungria, Poloónia. A este último país, voltaríamos a frequentar acções de formação em três anos consecutivos, mas também França, além de vários em Portugal, com destaque para a participação de dois elementos do grupo, num curso organizado pelo Teatro Animação de Setúbal, que nos custou um elemento que se profissionalizou e por lá ficou a trabalhar durante alguns anos, o José Pedro, precocemente desaparecido num infeliz acidente, mas que ainda teve tempo de voltar à cidade, onde seria um dos fundadores, primeiro da Companhia de Teatro de Santarém e depois do Centro Dramático Bernardo Santareno.

Em 1978, com um grande apoio do Veto, teve lugar o único curso internacional da AITA – IATA que se realizou em Portugal, o TIP – Theatre International For Young People, em Santarém, no então Complexo Andaluz.

Em 1980, reunindo estas experiências e o saber acumulado de outros membros do grupo, o Veto organiza o primeiro “Encontro de Teatro – De Mãos Dadas”, acção de formação dedicada a grupos de teatro, que se prolongaria por alguns anos promovendo a formação entre os grupos de teatro de Santarém. Na prática, procurávamos passar aos grupos da região, os ensinamentos que íamos aprendendo nas acções a que tínhamos acesso. Nasceu daqui a ARSTA – Associação Regional de Santarém de Teatro de Amadores

Mais tarde, o Veto seria também co-fundador, do CPTIJ – Centro Português de Teatro para a Infância e a Juventude, instância que juntava companhias e actores profissionais e amadores.

Ao longo deste meio século, as produções do Veto puderam ser vistas em países como os Estados Unidos da América, Finlândia, Espanha (por diversas vezes), Inglaterra, França, Republica Checa, França e Brasil.

Dos vários prémios recebidos, importa destacar que, em 1981 no Festival de Nova Iorque, em que participámos com “Palhaços”, o grupo recebeu o prémio para melhor espectáculo, e o António Júlio, o de melhor ator.

Em Portugal, percorremos praticamente todo o país, incluindo os Açores e a Madeira, num total de mais de trezentos teatros e salões e, em Santarém e no seu concelho, em mais de setenta locais diferentes.

Ao longo dos anos, o Veto acolheu no seu seio, bem mais de mil pessoas que representaram, fizeram cenários, participaram em cursos, ateliers e workshops, aprenderam a passar som e a iluminar espectáculos, foram contra-regras, assistentes de bastidores, operadores de varanda, sentiram o pó dos bastidores e as emoções únicas de enfrentar o público e representar estórias, sempre com uma preocupação de reflectir a nossa condição de vida em sociedade.

Neste mesmo tempo, estrearam-se mais de quarenta espectáculos de teatro para crianças e um número superior a meia centena destinado ao público adulto. Espectáculos que foram apresentados alguns milhares de vezes e vistos por muitos milhares de espectadores de todas as idades.

Produções destinadas às crianças, como “Era Uma Vez Um dragão”, “Dependurado da Lua”, “A Loja do Mestre André”, “As Músicas Mágicas”, “Pedro e o Lobo”, “Saltimbancos”, “Planeta Azul”, “Tótó, Bábá e o Mundo das Cores”, “O Jardim”, “Sonho com Pinóquio”, “Na Corte do Rei Príncipe”, “A Água Também se Lava”, “O Pantufa e o Augusto à Conquista de Santarém” e naturalmente os eternos "Palhaços", para não falar dos mais de cinquenta contos radiofónicos para crianças, entre muitos outros que marcaram gerações de espectadores.
Para adultos, “O Doido e a Morte”, “Anfitrião ou Júpiter e Alcmena”, “Guilherme Tell Tem os Olhos Tristes”, “A 10ª Turista”, “Colagem de Textos”, “O Baile”, “Exercício de Drama”, “Avieiros – Meus Senhores Vamos Falar de Liberdade”, “Branco, Vermelho e Preto”, “A Coisa”, os sucessivos espectáculos montados especificamente para celebrar o aniversário do 25 de Abril, as sucessivas "Odes ao Ribatejo, ao Tejo e Nas Margens do Tej"o, a dramatização da história do edifício da “Catedral de Santarém”, integrada no projeto Olhar a História, a dramatização da visita à "Torre do Cabaceiro”, “Bernardo Santareno nos Túneis da Liberdade”, “Contos de Mário Gin Tónic”, “Sermão dos Exéquias do Conde de Unhão”, “la Nonna”, “Beatriz Costa - Uma Mulher Admirável”, “Não se Ganha, Não se Paga”, “A Tomada de Santarém”, “Palavras de Poetas”, em colaboração com o grande músico João Madeira, “Chamem os Palhaços”, “Nervos de Papel”, “Correio – Entre a Estremadura e o Ribatejo”, “Cantando Espalharei”, “Branco, Vermelho e Preto / 35 anos depois”, também entre tantos, tantos outros, constituem um historial rico, diverso e impressionante.
...e tantos, tantos sonhos! ...e tantas, tantas propostas ainda por concretizar! ...e tantos, tantos projectos à espera! ...e tanta, tanta vida, tanta ideia, tanta coisa que queremos fazer, que não sei se os próximos cinquenta anos serão suficientes.
Olhando para este meio século, tempo em que o grupo viveu altos e baixos, sim é verdade, em alguns momentos estivemos próximo de terminar a actividade, a força de nos mantermos sempre derivou do facto de o grupo assentar num conjunto de pessoas que têm entre si uma grande amizade, assumindo o Veto com uma família, e uma família que com o tempo sempre soube ir crescendo e aceitando novos elementos. E, acima de tudo isso, uma verdadeira e intensa paixão pela arte teatral. Foi isso que nos permitiu ultrapassar os naturais problemas e vicissitudes, e muitas foram, e chegar a esta bonita idade de oiro."

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Descrição

Texto apresentado em sessão solene de 28.11.2019, às 18H00, no Salão Nobre do edifício dos Paços do concelho, na oportunidade de Assembleia de Investigadores do CIJVS, com a presidência da Sr.a Vice-Presidente do Município, Dr.a Inês Barroso.

Agrupamento

Veto Teatro Oficina

Local

Paços do Concelho de Santarém

Data

25 de Novembro de 2019

Tipologia

Comunicação

Arquivo

Arquivo Pessoal de Nuno Domingos